Especial

'Acelerômetro' monitora propagação de vírus e aponta risco de nova onda na região

Xandu AlvesPublicado em 27/05/2020 às 00:00Atualizado há 24/07/2021 às 20:07
Pandemia em São José dos Campos (Adenir Britto/CMSJC)

Pandemia em São José dos Campos (Adenir Britto/CMSJC)

A cor é verde, mas o horizonte é preocupante.

De acordo com o “acelerômetro da Covid-19” criado por pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Araçatuba, São José dos Campos ainda está na fase lenta da propagação da doença, sinalizada pela cor verde.

A informação pode ser entendida de duas formas. A cidade está numa boa fase para enfrentamento da doença. Ou que o pior ainda está por vir, justamente quando a RMVale caminha para relaxar ainda mais a flexibilização, segundo o governo estadual.

Até o dia 5 de junho, a maior cidade do Vale tinha 1.066 casos confirmados de Covid-19, quase 40% do total da região. Em junho, São José vem registrando taxa de crescimento da doença em percentuais diários de 3% a 7,5%.

“É má notícia que estamos na fase lenta, segundo o aplicativo um sinal verde, mas correndo risco de que piore mesmo”, avaliou o estatístico Paulo Barja, que é professor na FEAU (Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo) da Univap (Universidade do Vale do Paraíba).

No mesmo aplicativo, o Brasil aparece na cor rosa, de aumento exponencial da doença. O país segue acelerado para se tornar o epicentro mundial da pandemia, com mais de 34 mil mortes, superando a Itália, e mais de 621 mil infectados até 5 de junho.

Com um brasileiro morto por Covid-19 por minuto, o país está atrás apenas dos Estados Unidos, que tinha 108 mil mortes e 1,8 milhão de doentes na sexta-feira (5).

ACELERÔMETRO.

O aplicativo da Unesp monitora em tempo real a tendência de aceleração ou desaceleração do crescimento da doença em mais de 200 países e territórios.

Disponível gratuitamente online, a ferramenta carrega os dados de casos notificados disponíveis com atualizações diárias e aplica técnicas de modelagem matemática para diagnosticar o estágio atual da epidemia em um local.

“Além de democratizar o acesso à informação, para que todos possam entender o que exatamente está acontecendo em sua cidade, estado ou país, o aplicativo possibilita aos gestores públicos avaliar se uma determinada medida adotada para conter o contágio do novo coronavírus está ou não surtindo efeito”, declarou Yuri Tani Utsunomiya, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Faculdade de Medicina Veterinária de Araçatuba, em entrevista à Agência Fapesp.

Ele é o primeiro autor do artigo que descreve o desenvolvimento do modelo matemático, publicado na revista Frontiers in Medicine.

CARRO.

Para explicar como evolui uma epidemia, Utsunomiya faz uma analogia com um automóvel. Na fase inicial, a doença avança de forma lenta e o número de casos diários aumenta pouco, assim como um carro andando sob o efeito da embreagem.

A velocidade de crescimento é chamada de incidência e é medida de acordo com o número de novos casos por dia. Já a prevalência corresponde ao número de casos acumulados ao longo do tempo, que seria o equivalente à distância percorrida pelo automóvel imaginário.

“Quando o pedal de aceleração é pressionado, o número de casos começa a crescer rapidamente, assim como um carro acelerado adquirindo velocidade. Nesta segunda fase da epidemia ocorre o crescimento exponencial do número de casos”, disse Utsunomiya.

“O que todos os países buscam é cessar essa aceleração e iniciar a frenagem da doença e, vale dizer, são duas operações distintas. A primeira consiste em tirar o pé do pedal de aceleração. Com isso, o pico de incidência é atingido. A segunda envolve exercer aceleração negativa sobre a doença [pisar no freio] para que sua velocidade de crescimento diminua até zero. Sem velocidade, o automóvel para. E o que queremos, que a Covid-19 pare de ser disseminada.”

O acelerômetro permite ver, em tempo real, se um determinado país ou localidade está com o pé no acelerador ou no freio, com algum grau de imprecisão nos locais em que há muita subnotificação de casos. Porém, ressalta o pesquisador, a transição entre os quatro estágios de crescimento da epidemia --lento (verde), exponencial (rosa), desaceleração (amarelo) e estacionário (azul)-- pode ocorrer de forma alternada.

Ou seja, mesmo após entrar em desaceleração ou até em crescimento estacionário, a doença pode voltar para a fase exponencial caso medidas de controle sejam abandonadas, como o isolamento.

Siga OVALE nas redes sociais
Copyright © - 2021 - OVALE
Todos os direitos reservados. | Política de Privacidade
Distribuído por:
Desenvolvido por: