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Non supra grammaticos

Em seus devaneios, Bolsonaro mostra acreditar que tem poderes imperiais, flertando com atos inconstitucionais

Schisma. Sigismundo de Luxemburgo (1368 - 1437), imperador do Sacro Império Romano-Germânico, amplamente conhecido por sua vasta cultura, cometeu um erro gramatical ao usar a palavra 'schisma' -- que, no latim não é uma palavra do gênero feminino, mas Sigismundo a usou como se fosse. Quando cometeu esse pequeno deslize, Sigismundo foi corrigido e esbravejou, dizendo que era o imperador e podia fazer o que quisesse, podia tudo. Então, prontamente, um conselheiro fez questão de relembrar o monarca: 'Ceasar non supra grammaticos'. Traduzindo: 'o imperador não está acima da gramática'. A frase tornou-se um ditado que, apesar de ter origem na Idade Média, ainda é atual. Contemporâneo no Brasil em que o presidente acredita ter poderes imperiais.

E não é cisma. Nem schisma.

Cada dia mais torna-se evidente o total desconhecimento do presidente Jair Bolsonaro (PSL) em relação ao seu papel, do que diz a Constituição e da função exercida pelos poderes Legislativo e Judiciário, além de instituições, entre elas a imprensa e a ciência.

Sempre em palanque, já de olho em 2020 e apostando na tática do conflito odioso, devido à falta de projeto e resultados, Bolsonaro revela -- de uma forma constante -- que os 28 anos no baixo clero da Câmara, com a média de uma proposta aprovada a cada 14 anos, foram insuficientes para que ele entendesse qual é o papel dos três poderes.

Quer um exemplo?

"A campanha acabou para a imprensa, eu ganhei. A imprensa tem que entender que eu, Jhonny Bravo, Jair Bolsonaro ganhou (sic), p****. Ganhou, p****. Vamos entender isso", declarou ele, com a verborragia que já tornou-se característica, apesar de estar distante do decoro esperado para a função presidencial.

Vencedor nas urnas, Bolsonaro passa a impressão de que acredita ter recebido poderes imperiais e incontroláveis. Resumidamente, é um lema no estilo 'ganhei as eleições, faço o que quiser'.

No entanto, fora da bolha bolsonarista, não é assim que a banda toca. A Constituição, tão atacada pelo chefe do Executivo, prevê o equilíbrio entre os poderes, com o Legislativo e o Judiciário sendo um sistema de freios e contrapesos, justamente para que a Presidência não tenha poderes... imperiais. O presidente não pode tudo, simplesmente por ter vencido uma disputa eleitoral. Existe um limite: a Carta Magna.

Com profundas dificuldades em dialogar com os demais poderes, além de governar na base de caneladas e canetadas, Bolsonaro mantém a sua aposta no clima de Fla-Flu, cria cortinas de fumaça (não seria a fumaça oriunda do desmatamento?), tenta desacreditar as instituições, principalmente a imprensa, para impor a sua narrativa, ajudado por uma militância digital disposta a atacar todos aqueles que discordam o governo, em uma espécie de macarthismo com Wi-fi.

Não é cisma. Nem schisma.

É um fato. Ou factum, em latim. É preciso que as instituições e os poderes lembrem que 'o imperador não está acima da gramática'. E muito menos Bolsonaro está acima da Constituição..