'Nenhum local do mundo está preparado', diz Izaias sobre o vírus

Em entrevista exclusiva, prefeito de Jacareí apresenta as medidas que devem ser adotadas em combate ao novo coronavírus no município; para Izaias, êxito na missão depende do comportamento da população

Thaís [email protected]_thaisleite | @jornalovale

Do alto da Praça dos Três Poderes, o prefeito Izaias Santana (PSDB) diz tentar convencer a população sobre a realidade enfrentada por todo o mundo: é uma pandemia.

Em novo episódio da série 'Gabinete de Crise', você confere detalhes das medidas adotadas contra a guerra ao coronavírus em Jacareí.

- Jacareí está preparada para o momento mais crítico da pandemia?

Nenhum lugar do mundo está preparado. Todos fomos surpreendidos, o importante é que estamos no caminho certo, e isso se dá em três frentes: a primeira, ampliar a oferta de serviços de saúde, sobretudo vagas de UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e de internações. A segunda, uma grande campanha de conscientização da população da necessidade da prevenção. o êxito final dependerá do comportamento das pessoas. E a terceira, acompanhar toda a atenção que está sendo dada para a população que fica sem recurso, que fica sem emprego, e na medida do possível apresentar soluções de socorro.

- Há leitos suficientes? Há falta de respiradores e outros equipamentos de primeira necessidade?

Em todas as cidades, e em Jacareí não é diferente. Hoje nós precisaríamos de uma quantidade de 40 respiradores para que nós pudéssemos suportar o número de contagiados dado a progressão estimada. É evidente que o esforço é para que essa progressão não ocorra, mas precisaríamos de 40 equipamentos. Esses equipamentos não estão disponíveis no mercado, dependem de política de distribuição do governo federal e estamos aguardando. Além disso, nós temos o número de leitos de UTI insuficiente para atender o crescimento dessa demanda, o que nos obrigou a mudar, reformular, os equipamentos de saúde pública do município. O único equipamento adaptado, apropriado, que pode sofrer adaptações a curto prazo para deter essa demanda específica é a UPA Dr. Thelmo Cruz, por isso ela será porta de entrada exclusiva para os casos de contaminação. As demais providências a gente vai ampliando à medida em que esse tempo fatal de ponto da pandemia atinja o seu pico.

- O achatamento da curva de crescimento do contágio do vírus é tido como fundamental para que o número de infectados diminua, evitando um colapso no sistema de saúde. Como a prefeitura pretende atuar para alcançar esse achatamento?

Convencendo a população, dando exemplo, fazendo sacrifício. Desde 17 de março, a prefeitura só está funcionando seus serviços essenciais. Toda a estrutura do poder público local está funcionando em função do enfrentamento da pandemia, esse é o primeiro exemplo. O segundo é convencendo a população de que efetivamente precisamos levar a sério a política de isolamento social, a política de redução do número de contagiados.

- Recentemente, o governador João Doria apontou para a possibilidade de prisão no caso das pessoas não se conscientizarem que é o momento é o de que "fiquem em casa". Como o senhor avalia essa conduta?

É a última alternativa, e isso diante de um sistema jurídico nacional e estadual que aponte para essa necessidade. A fala do governador foi no âmbito de uma entrevista, muito mais como alternativa, não como decisão a ser tomada. E decisões extremas elas sempre devem ser tomadas quando esgotadas todas as demais. A melhor saída ainda é o convencimento da população, a consciência das pessoas, e o poder público dá o exemplo em políticas, em falas e em comportamento.

- Qual, na sua avaliação, tem sido o maior obstáculo ao isolamento, até agora?

São dois os obstáculos: primeiro, é a relativa distância dos casos mais graves. Na nossa região, não temos ainda o número de infectados e o número de mortos que crie para a população um temor, um receio, está muito longe, é Espanha, é Itália, ou mesmo a capital, não chegou aqui. Esse descrédito do risco, ou a distância do risco real efetivo é um fator que faz com que a população que não se conscientize de que ele é real e está próximo. E o segundo, é a ausência de uniformidade no comando do país. Nós temos distorções entre os atos de governo e as falas e os comportamentos do presidente. Nós temos divergências expostas entre as opiniões do presidente e as opiniões de importantes ministros. Me parece que uniformizar isso, em qualquer dos sentidos, é bem melhor do que continuar essa discrepância.

- Além da pandemia do coronavírus, a crise deixa clara a capacidade de impacto de outra epidemia: a das fake news. Como o senhor analisa o impacto dessas notícias falsas no combate ao Covid-19?

Nós já estávamos acostumados porque esse fenômeno já começou em 2018 e é um fenômeno que politiqueiros gostaram porque parece-me que que dá vaso à irresponsabilidade e à inconsequência nas falas, nas opiniões, na divulgação de informações equivocadas, e portanto, o poder público já estava acostumado com esse ambiente. O problema agora é que não se trata apenas de disputa eleitoral, se trata de vidas, se trata de informações equivocadas que desarticulam as ações do poder público, descredenciam as falas sérias de agentes políticas e expõe as pessoas menos avisadas, as pessoas menos esclarecidas a equívocos no seu próprio comportamento. Ora, se o grande segredo do enfrentamento adequado dessa pandemia é o comportamento humano, os fatores que alteram o comportamento correto são fatores que devem ser apontados e devem ser afastados. Nesse papel, a mídia séria exerce uma função fundamental, porque ela dá informação correta, ela faz a investigação, ela faz a pesquisa e orienta adequadamente. Então, o que a população deve procurar é seguir sempre os dados e informações veiculadas por mídias sérias, mídias que têm responsabilidade social.

- Como funciona o 'gabinete de combate à crise', a estrutura emergencial criada para essa guerra?

O prefeito, os secretários do gabinete, que são chefe de gabinete, secretário de governo, secretário de finanças e administração e o secretário de saúde, somos os que estamos diretamente à frente de todas as inciativas e as demais secretarias trabalham na linha complementar auxiliando, mantendo aquilo que é essencial em suas áreas, mas ao mesmo tempo, auxiliando sempre que necessário as medidas de saúde, segurança, trânsito e assistência social, que são as quatro áreas que estão funcionando, porque essas quatro áreas tem reflexos, ou seja, elas precisam dar respostas a problemas decorrentes da pandemia.

- O presidente Jair Bolsonaro tem defendido a flexibilização do isolamento. Como avalia a condução da crise pelo Planalto?

Não há nesse assunto decisões isoladas, de prefeito, governador, de presidente, é o estado brasileiro, é o conjunto da sociedade. Por mais que você tenha a sensação de que a caneta é sua, você mande, as suas decisões precisam ter respaldo nos demais poderes, nos demais órgãos, nas demais pessoas que tenham autoridade. E onde há decisão fundamentada na técnica, a discricionariedade, ou a vontade política não prevalece, não pode prevalecer. Então, as decisões do presidente precisam de respaldo da área técnica e precisam convencer o poder judiciário e o poder legislativo, porque vivemos em uma sociedade, nós não somos um país governado por um déspota, nós vivemos em uma sociedade plural, que tem instituições e tem pessoas que respondem por essas instituições. Nenhuma decisão política prevalecerá se ela não tiver como base um argumento jurídico forte, um argumento de saúde pública forte, e a economia ela é importante, mas ela precisa ceder para que a vida prevaleça. Isso é lição básica de sobrevivência humana, os homens aprenderam isso quando viviam nas cavernas.

- Quais medidas podem ser tomadas em Jacareí em apoio ao comércio e empresas?

O grande socorro econômico financeiro numa sociedade como a nossa depende de iniciativa do governo federal, primeiro porque ele fica com 54% de toda a receita arrecadada no país. Segundo porque ele tem receitas, ele tem reservas. Terceiro porque ele tem bancos, BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Central e também porque ele é o agente responsável por recursos no âmbito internacional. Então não tem sentido algum deixar para estados e municípios a responsabilidade de socorrer empresas, a responsabilidade da ajuda financeira. O que que nós precisamos trabalhar com eficiência: as medidas de saúde, porque há a municipalização de fato e a assistência social, essas duas áreas as prefeituras precisam dar respostas urgentes e eficientes. A questão econômica, as questões de emprego, o socorro à indústria, o socorro à empresa, o socorro ao comércio, tudo isso depende de política econômica financeira que o grande ator responsável por isso, e diga-se de passagem, está fazendo, já temos diversas iniciativas, é o governo federal.

- Qual a sua orientação para o morador de Jacareí, hoje?

Acreditar que estamos diante de uma pandemia. Acreditar que a vida das pessoas mais próximas ou um pouquinho mais distante está sob risco. Acreditar que não tem saída, que não tem remédio, que não tem vacina, que não tem cura dada pela medicina, fornecida pela ciência. E para isso, o comportamento humano é o fator que vai determinar o nível de contaminação, o nível de mortes. Por isso, se conscientizar de que ele é responsável pela sua vida e pela vida das pessoas que estão em volta dele. É isso que nós esperamos de cada cidadão jacareiense, para que fique em casa se não precisar estar na rua, e para que ajude o poder público a tomar essas medidas de restrições sim, de constrição sim, mas indispensáveis para que lá na frente nós não tenhamos uma situação que não possamos administrar.

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