Araraquara credita à variante de Manaus surto de Covid que levou a lockdown

Agência O Globo | @jornalovale

As autoridades sanitárias de Araraquara, que ficou em lockdown até o fim da noite desta segunda-feira (22), atribuem à nova variante da Covid-19, proveniente de Manaus, o aumento descontrolado de casos na cidade. De acordo com a coordenadora de Ações de Combate à Covid-19, Fabiana do Carmo Araújo, a maioria dos novos lotes de casos enviados para testes são da nova cepa que surgiu na região Norte.

Além de determinar o fechamento de todo o comércio, o município deverá ter um tratamento voltado para os idosos. O Instituto Butantan, em parceria com cinco hemocentros do estado, vai fornecer plasma de pessoas que tiveram Covid-19 para tratamento de pacientes com mais de 60 anos.

O plasma será administrado até 72 horas do início dos sintomas em pacientes idosos e que tenham algum tipo de comorbidade, como diabetes, hipertensão ou obesidade. A primeira remessa, entre 50 e 100 unidades, será encaminhada a Araraquara até a manhã desta terça-feira (23).

Segundo Fabiana, embora ainda faltem estudos mais aprofundados sobre a nova variante da Covid-19, médicos estão observando mudanças no quadro clínico dos pacientes e maior tempo de permanência na UTI do que em relação à variante tradicional.

"A gente já percebia que tinha alguma coisa acontecendo porque o quadro clínico dos pacientes estava diferente. Há muito o que se estudar em relação a essa nova variante, já mandamos dois lotes e a maioria é da nova variante de Manaus. A gente está fazendo essa inferência", afirmou Fabiana.

Até domingo, Araraquara tinha 12 casos confirmados da variante brasileira, detectada pela primeira vez em Manaus. A cidade já havia adotado um lockdown mais brando, mas não foi suficiente. Segundo a Prefeitura de Araraquara, durante todo o ano de 2020 o município registrou 92 mortes por Covid-19. Este ano, em apenas 45 dias, foram 75 óbitos pela doença.

Tratamento com plasma

Na manhã desta terça-feira (23), Araraquara deve recebeu o primeiro carregamento de plasma para tratamento de pacientes com Covid. O plasma é obtido com sangue de pessoas que tiveram a doença e desenvolveram alto nível de anticorpos. Com o uso, a intenção é que a situação de infectados pelo coronavírus não se agrave e que eles não precisem ser intubados ou levados à Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O uso do plasma tem sido estudado em todo o mundo. O último estudo publicado, segundo Dante Langhi, presidente da Associação Brasileira de Hematologia (ABHH), foi feito na Argentina e divulgado no The New England, um dos mais respeitados jornais de medicina. No total, 160 pacientes foram testados. Metade recebeu plasma, metade recebeu placebo, que é uma substância inócua.

No grupo que recebeu o plasma, 13 pacientes (16% do total) evoluíram para doença respiratória grave. Dos 80 que receberam placebo, 25 tiveram piora do quadro (31% do total). A redução de risco relativo entre quem usou plasma foi de 48% em relação aos que não usaram. Nenhum evento adverso solicitado foi observado.

Segundo Langhi, em Araraquara não será feito o chamado estudo randomizado, como na Argentina, que inclui dois grupos de pacientes - um que recebeu a substância, outro que recebeu placebo.

"Estamos usando de forma compassiva, não experimental. Nossa avaliação será observacional", disse o hematologista.

Segundo ele, estudos recentes mostraram que o plasma não tem efeito em pacientes que já estejam em estado graves, mas que pode ajudar para evitar piora no quadro dos infectados.

Decreto de lockdown

Com UTIs lotadas, Araraquara entrou em lockdown no domingo. Até meia-noite desta terça-feira, as pessoas só puderam sair de casa para buscar atendimento médico, comprar medicamentos ou trabalhar em serviços essenciais. Supermercados funcionaram com entregas domiciliares. Postos de combustíveis, restaurantes, bares e demais estabelecimentos comerciais também ficaram fechados. Os ônibus de transporte público não circularam.

"Desde o dia 15 estavam valendo as regras de quando o governador nos colocou na fase vermelha, com uma quarentena mais restrita. Mas a adesão da população a esse distanciamento, baseado na taxa de isolamento que temos, estava muito aquém do que a gente precisava. Algo mais duro precisava ser feito", afirmou.

O maior tempo de internação tem sobrecarregado o sistema de saúde. Nesta segunda-feira, o coordenador-executivo do Centro de Contingência da Covid-19 no governo de São Paulo, João Gabbardo, já destacou que embora o número de novas internações tenha diminuído nas últimas semanas em todo o estado, o número de pessoas internadas aumentou.

"Isso pode significar que, mesmo que não tenha ocorrido um aumento tão significativo de novos casos na UTI, a permanência desses pacientes na UTI tem sido maior. Por isso que temos um número de pacientes internados bem acima da expectativa de quando analisamos os dados de novas internações", afirmou Gabbardo.

Assinar OVALE é

construir um Vale melhor


OVALE nunca foi tão lido, assistido, curtido e compartilhado. São mais de 23 milhões de visualizações por mês apenas nas plataformas digitais, além da publicação da edição impressa, revistas e suplementos especiais. E sempre com o DNA editorial de quem é líder em todas as plataformas, praticando um jornalismo profissional, independente, crítico, plural, moderno e apartidário. Informação com credibilidade, imprescindível para a construção de uma sociedade mais livre e mais justa, em um tempo em que a democracia é posta em risco por uma avalanche de fake news. Aqui a melhor notícia é a verdade. E nós assinamos embaixo. Seja livre, seja OVALE. Viva a democracia. Assine OVALE e ajude-nos a ampliar ainda mais a melhor cobertura jornalística da região.