Especialistas alertam contra aumento da 'velhofobia' durante pandemia do coronavírus

Agência O Globo |

 Todos os dias, às 18h30, a antropóloga Mirian Goldenberg liga para seu melhor amigo, José Guedes, de 97 anos. Juntos, eles estudam "Os Lusíadas", fazem exercícios com palavras e cantam. Semana passada, ele se emocionou ao ouvir dela versos de Roberto Carlos: "Como é grande o meu amor por você".

— Até março ele ia ao banco, encontrava amigos, caminhava... Ficou deprimídissimo com as restrições contra Covid-19. Detestou todo ritual de proteção para sair — diz Goldenberg. — Mas conseguimos encontrar, dentro de casa, um espaço de liberdade. Eu soube escutar o seu desejo.

Esta escuta, entretanto, tem se tornado rara. Um efeito colateral da pandemia foi o aumento do desrespeito com idosos, observam Mirian Goldenberg e a juíza Andréa Pachá. Amigas e referências na área, ambas conversaram por vídeo a convite do GLOBO sobre o tema.

Ambas apontam como o desrespeito aos velhos se intensificou dentro de casa, com violação da autonomia, maus tratos e violência patrimonial. E como o preconceito foi escancarado: há quem culpe os idosos pela necessidade do isolamento social.

Pachá é juíza e atua na Vara de Sucessões, onde lida com processos ligados ao envelhecimento, como inventários e curatelas. Goldenberg é antropóloga e pesquisa sobre envelhecimento e felicidade há mais de duas décadas. Desenvolve uma pesquisa com pessoas com mais de 90 anos e durante a pandemia está em contato diário com 40 delas. Na próxima quinta-feira, dará uma palestra on-line sobre "A invenção de uma bela velhice: projetos de vida e busca de significado" na Casa do Saber.

Segundo Goldenberg, estudos apontam que a violência contra os mais velhos é praticada em 51% dos casos pelos filhos e quase 10% pelos netos.

— Isso me preocupa principalmente nesse momento em que os velhos estão aprisionados em casa e não têm como denunciar — diz — Há duas vertentes na velhofobia: o pânico de envelhecer na cultura brasileira, porque é um tipo de morte simbólica. E o lado da violência física, verbal, psicológica e abuso financeiro. A velhofobia saiu do armário, está dentro de casa e nos discursos de economistas, autoridades, empresários.

Pachá, por sua vez, diz ver a pandemia como um momento significativo e simbólico de exposição de um preconceito que já existia em uma sociedade que exclui aqueles que viveram mais:

— Uma sociedade que não respeita quem viveu mais e que pretende confiná-la para propiciar a liberdade do resto não é humana. É como se os idosos tivessem que pedir desculpa por estarem vivos.

A juíza pondera que nem todo cuidado é velhofobia, e destaca ser natural da relação humana querer interferir na vida daqueles com quem se convive. Ressalta, porém, que o respeito pelo desejo do outro também é uma manifestação do cuidado:

— Há um fio tênue entre a proteção e o cuidado, e a forma de lidar com isso é o respeito. Sem isso, passamos por cima de qualquer desejo e obrigamos o outro a fazer algo para você, e não para ele.

Goldenberg acrescenta que há "diversas formas" de velhice, desde a mais autônoma até a mais independente, e em todas, precisamos ter a capacidade de escuta para chegar juntos ao que é melhor para eles.

As duas consideram, portanto, que o primeiro passo fundamental para mudar a cultura velhofóbica é respeitar a voz de quem envelhece.

— A pessoa precisa se sentir constrangida quando fala em nome do outro sem autorização, porque é uma forma preconceituosa de lidar com a vida —diz Pachá. — Não adianta criminalizar, é preciso resolver com a racionalidade. E estamos vivendo um momento muito pouco racional.

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