Covid-19: estudo de prevalência da Ufpel indica tendência de desaceleração no Brasil

Agência O Globo |

Dados da quarta etapa da pesquisa EpiCovid-19 BR, da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), reforçam a percepção de que a Covid-19 está desacelerando no país. Foram coletadas amostras sorológicas em 33.250 pessoas entre 27 e 30 de agosto em 133 municípios. Os pesquisadores da universidade identificaram que 1,4% das pessoas testadas apresentaram anticorpos, uma redução em relação à terceira fase (3,8%).

A quarta fase da pesquisa da Ufpel, que monitorou a prevalência entre os meses de maio e junho, deveria ter começado em 9 de julho, como reportou O GLOBO. No entanto, os trabalhos foram interrompidos depois que o Ministério da Saúde não renovou o contrato com a universidade, firmado na gestão de Luiz Henrique Mandetta. O retorno da pesquisa foi viabilizado — sem verba federal — após um acordo com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a iniciativa Todos pela Saúde.

A diminuição em relação à terceira etapa indica que o vírus circula com menos intensidade pelo país, mas a menor prevalência de anticorpos não significa que a população está menos protegida. Segundo os autores, a memória imunológica aquirida pelo organismo contra o patógeno mantém as pessoas suficientemente protegidas em caso de nova infecção.

Isso ocorre porque os anticorpos contra o Sars-CoV-2 só são detectáveis pelos kits utilizados pelos cientistas da Ufpel durante algumas semanas, ao contrário do que se imaginava inicialmente. Segundo os autores do estudo, o mesmo padrão tem sido identificado ao redor do mundo com diferentes tecnologias de testagem. Por isso, é possível identificar se a infecção ocorreu recentemente.

Norte tem maior prevalência

A Região Norte teve a maior prevalência do vírus, com 2,4%, seguida do Nordeste, com 1,9%. Já no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, o patamar foi de 0,5%. O trabalho também identificou a tendência de interiorização da Covid-19 no Brasil. As duas cidades com maior prevalência são Juazeiro do Norte e Sobral, no Ceará, com 8,0% e 7,2%, respectivamente, bem à frente de capitais como Fortaleza, com 3,6%, Boa Vista (3,2%), Belém (2,4%), São Paulo (0,8%) e Rio (0,8%).  A Ufpel indica, ainda, que sete pessoas a cada mil infectados faleceram em decorrência do novo coronvírus.

Em entrevista à TV RBS, o reitor da Ufpel, Pedro Hallal, que também coordena o estudo, alerta que o distanciamento social e medidas de higienização precisam continuar na rotina dos brasileiros a despeito da desaceleração:

"Sim, (a pandemia) está diminuindo. Acabou? Não, não acabou'. Ainda estão morrendo mais ou menos 700 pessoas por dia, de acordo com a média móvel. Significa: estamos no caminho de eliminar essa pandemia, mas precisamos estar atentos. Precisamos seguir usando máscara, seguir praticando o distanciamento social, seguir nos cuidando".

Diferença por renda e etnia

A estratificação por renda e faixa etária também mostra que a doença não atingiu a população brasileira de forma homogênea. A quarta fase reforçou tendências observadas nas etapas anteriores: pretos e pardos têm maior chance de se infectar, enquanto os 20% mais pobres têm o dobro de prevalência em relação à camada dos 20% mais ricos. Já entre os indígenas, esse índice diminuiu na medida em que a epidemia reduziu a velocidade na Região Norte.

Houve, no entanto, mudanças em relação à terceira fase. Cresceu a prevalência de anticorpos em crianças e idosos, enquanto houve queda entre adultos. Hallal atribui esse fator à redução da adesão ao isolamento.

"Enquanto nas primeiras três fases da pesquisa o maior percentual de casos acontecia nos adultos jovens, especialmente aqueles em idade produtiva, que trabalham fora de casa e que estavam tendo que sair, agora, na quarta fase da pesquisa, o maior número de infecções foi observado nas crianças e nos idosos. Exatamente porque esses grupos etários estão mais expostos pela diminuição do distanciamento social", disse o reitor à RBS.

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