Após novas mudanças no Inpe, comunidade científica critica intervenção do governo

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) voltou ao centro das discussões no país nesta última semana depois que a pesquisadora Lubia Vinhas, então coordenadora-geral de Observação da Terra, foi exonerada do cargo que ocupava desde março de 2018.

Respeitada na comunidade científica dentro e fora do país, Vinhas foi exonerada três dias depois de o Inpe divulgar que a Amazônia sofreu o maior desmatamento para um mês de junho em cinco anos.

O departamento dirigido por ela monitora o desmatamento por meio de equipamentos como o Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real).

O desmatamento na Amazônia em junho, por exemplo, quebrou mais um recorde na série histórica do mês e chegou a 1.034,4 km² devastados.

O índice é 10,6% maior do que o registrado no mesmo período, em 2019.

Somada à exoneração, a política ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vem sofrendo duras críticas até de aliados, que pedem a demissão do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Investidores estrangeiros também ameaçaram não aplicar no Brasil caso não se mude a política ambiental e se reduza o desmatamento na Amazônia.

Lubia declarou em uma entrevista a um canal de televisão que entendia a exoneração dela como “relacionada diretamente ao processo de reestruturação do Inpe que vem sendo proposto pela atual direção, e não a uma ação em resposta direta a números relacionados ao monitoramento”.

De fato, dias após a exoneração da pesquisadora, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações convocou uma coletiva para anunciar o novo organograma do Inpe, que passa por reestruturação.

O ministro Marcos Pontes e o diretor interino do Inpe, Darcton Damião, explicaram as mudanças na organização e negaram que Vinhas tenha sido exonerada por causa dos dados do desmatamento.

“A transferência da Lubia para o setor novo [Divisão de Projeto Estratégico] acabou acontecendo agora e chamou a atenção. Ela não foi demitida, mas terá outra função estratégica. Isso tem a ver com a reestruturação e não com os dados do desmatamento”, afirmou o ministro da Ciência.

“O assunto vinha sendo discutido há seis meses. Não havia surpresa”, acrescentou Damião.

No ano passado, após o Inpe mostrar aumento no corte da floresta, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) criticou os dados e foi rebatido pelo então diretor do instituto, Ricardo Galvão, que acabou perdendo o cargo.

A exoneração de Vinhas, a reestruturação do Inpe e a política ambiental do governo Bolsonaro são alvos de críticas de membros da comunidade científica e do Inpe.

Servidor aposentado do Inpe, o pesquisador Acioli Antonio de Olivo disse que Vinhas foi demitida não por eventuais erros, mas por seus acertos e por respeitar a verdade científica.

“Se a exoneração da Lubia não foi retaliação, por que os outros coordenadores da atual estrutura não foram exonerados, apenas ela?”, questionou.

Olivo também criticou a nova estrutura do Inpe e a maneira como a direção promoveu o processo de mudança, segundo ele “organizado às pressas, incompleto e improvisado” e com “muita conversa e pouco esclarecimento, muito achismo e pouca estratégia”.

E completou: “Como está cheio de erros, não sei se foi mais um plano maquiavélico para esvaziar as áreas mais sensíveis do Inpe”.

NEGACIONISMO.

Na avaliação de Antonio Miguel Vieira Monteiro, pesquisador do Inpe e coordenador do LiSS (Laboratório de investigação de Sistemas Socioambientais), o negacionismo germina, se alimenta e cresce na falta de consenso das autoridades políticas do país, podendo “nos devorar a todos”.

Na coletiva, Pontes defendeu a reestruturação do Inpe: “Ideia é melhorar a gestão, com eficiência de projetos, orçamento e de pessoas. Tudo pode ser melhorado, e o Inpe ficará ainda melhor”.

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