Médicos brasileiros estão menos confiantes no envolvimento da população contra Covid-19, diz pesquisa

Agência O Globo |

Os médicos brasileiros estão cada vez mais pessimistas com o envolvimento da população nas medidas de combate ao novo coronavírus. É o que demonstra uma pesquisa realizada pela empresa Fine Research, plataforma utilizada para pesquisa com médicos da América Latina, incluindo o Brasil. De acordo com a pesquisa, se na segunda quinzena de março, quando a doença chegou ao Brasil, 67% dos médicos avaliavam positivamente o envolvimento da população, o número no final do mês de abril caiu 12 pontos percentuais, para 55%.

O número é similar ao de Colômbia (54%) e maior que a no México (45%), porém muito menor que o da Argentina, onde 83% dos médicos avaliam de forma positiva o envolvimento da população.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro tem minimizado, de forma recorrente, a severidade da epidemia da Covid-19. Bolsonaro defende a flexibilização da política de distanciamento físico adotada pela maioria dos estados. No início da pandemia, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, também duvidou do impacto do coronavírus, mas mudou sua orientação nos primeiros dias de abril, quando passou a orientar os mexicanos a permanecerem em casa.

O pessimismo dos médicos brasileiros é contrastada com o apoio quase unânime dos médicos argentinos às políticas adotadas pelo presidente Alberto Fernández no país desde o início da chegada da doença. De acordo com a pesquisa, 98% dos médicos ouvidos avaliam positivamente as medidas sanitárias adotadas pelas autoridades. No Brasil, esse número é de 76%.

A Argentina tem 4874 casos confirmados e 260 mortes. O Brasil, por sua vez, tem 109 mil casos confirmados e o número de mortes é de 7391. No país vizinho, ao contrário do que aconteceu com o presidente Jair Bolsonaro, a aprovação do presidente cresceu em meio à pandemia. As opiniões favoráveis à gestão de Fernández foram de 33% antes da crise para 60% no último dia 13 de abril, segundo o jornal "La Nación".

Poucos testes e demora nos resultados, dizem médicos

Brasil, na opinião dos médicos ouvidos, é o que tem a pior avaliação em relação à quantidade de testes para Covid-19. Entre os 247 médicos ouvidos no país, 70% acreditam que o número de testes à disposição está muito abaixo do nível ideal. Nenhum dos outros países pesquisados alcança tamanha insatisfação: o mais próximo é o México (57%). Nos Estados Unidos, apenas 32% dos médicos ouvidos afirmaram que havia poucos testes à disposição dos pacientes.

A insatisfação com a falta de testes também se reflete na demora para conseguir resultados. De acordo com os médicos ouvidos pela pesquisa, o Brasil é um dos países que mais demora para apresentar o resultado dos testes feitos: apenas a Colômbia demora mais. Segundo a pesquisa, 42% relataram ter recebido os resultados de exames em até três dias. Como comparação, 62% dos médicos argentinos afirmaram ter recebido os testes em um período menor que três dias. A comparação com países desenvolvidos é ainda mais distante: nos Estados Unidos, 93% dos médicos dizem ter recebido os exames em até três dias.

Na última quinta-feira, com base em um estudo publicado por professores da Universidade de São Paulo, a reportagem que o número total de infectados no Brasil pode ser 16 vezes maior do que o número oficial divulgado naquela data, de 73.553, que considera somente doentes graves e mortos.

Para chegar ao número de mais de 1,2 milhão de possíveis infectados, os cientistas fazem o que chamam de "modelagem reversa": com base no número de óbitos divulgados no Brasil, usam a taxa de letalidade da doença na Coreia do Sul, onde há uma política de testagem massiva da população. O número é, então, ajustado à população brasileira com base nas suas faixas etárias.

A subnotificação é reforçada pela pesquisa da Fine Research: ao passo que 70% dos médicos considera que há menos testes do que o ideal, eles também relatam que a maioria dos testes realizados pelos médicos brasileiros, quando chegam, têm tido resultado positivo para a Covid-19.

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