José Mojica Marins, o Zé do Caixão, morre aos 83 anos

"O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. O que é a existência? É a continuidade do sangue. O que é o sangue? É a razão da existência.". Esse é o discurso que introduz o filme "À Meia-Noite Levarei Sua Alma", de 1963, estrelado por Zé do Caixão, personagem de José Mojica Marins.

Não é meia-noite, mas a alma dele foi levada. Aquele que não obedecia nem Deus, nem o Diabo, foi-se do Reino dos Vivos para ficar marcado para sempre na história do cinema.

O mestre do horror, José Mojica Marins faleceu na tarde desta quarta-feira. O paulistano, que também era ator, roteirista e fez diversos trabalhos na televisão foi vítima de uma broncopneumonia e estava internado no hospital.

Lembrado pelo seu legado como figura bizarra da cultura pop brasileira, José Mojica Marins foi muito mais do que uma grande personalidade.

O cineasta dirigiu cerca de 40 filmes, incluindo "À Meia-Noite Levarei Sua Alma", que é considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros. Neste filme, seu personagem "Zé do Caixão" aparece pela primeira vez.

Um homem sem moral, sem crença e que se acha superior a todos em sua volta é caracterizado com um chapéu e trajes negros, além de suas características unhas compridas. O personagem surgiu depois de um pesadelo de Mojica, em que um homem com as mesmas características o levava para o túmulo.

Aos poucos, a figura de Mojica se confundiu a de Zé do Caixão, que além de ser um talentoso diretor, tornou-se um ícone.

Seu trabalho monumental no cinema brasileiro é pouco lembrado ou reconhecido pelo gênero restrito do seu trabalho. Com poucos recursos, foi capaz de achar soluções inteligentes para dar imagem a sua imaginação, principalmente quando se tratavam de cenas de terror.

Zé foi capaz de popularizar o terror como poucos fizeram no mundo, tornando-se até mesmo um símbolo "cult" fora do país.

Mojica teve uma forte relação com o cinema da Boca de Lixo, tendo dirigido também pornochanchadas, filmes de aventura, dramas, entre outros.

Na década de 1990, apresentou o Cine Trash na Rede Bandeirantes, que fez com que sua figura ficasse ainda mais marcada no imaginário do brasileiro.

LEGADO.

Mojica Marins inspirou diversos amantes do cinema e do horror, principalmente sua filha, Liz Marins.

Também cineasta e atriz, a herdeira é Liz Vamp, uma personagem que seria filha de Zé de Caixão com uma vampira.

O cineasta Juliano Dornelles, que dirigiu Bacurau ao lado de Kléber Mendonça reagiu em sua conta no twitter à morte de Mojica. "Um dos maiores de todos os tempos partiu. Obrigado, Mojica", escreveu.

Thunder Dellú, escritor de horror e aventura de Monteiro Lobato, afirma que Mojica foi uma de suas grandes inspirações.

"Assustou muita gente e incomodou boa parte da sociedade com temas polêmicos, principalmente ligados à religião. Foi "punk" no sentido do "faça você mesmo". Escrevia as histórias, interpretava e dirigia com muita paixão. Um mestre!", finaliza o escritor.

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