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'Postura de Bolsonaro melanclica e antidemocrtica', diz ex-presidente da Comisso da Verdade

Advogado e ex-presidente da Comisso da Verdade compara declaraes do presidente a ataque democracia e diz que relatrio contradiz afirmaes sobre morte na ditadura

Xandu [email protected] | @xandualves10

Ex-presidente da Comissão Nacional da Verdade, o advogado Pedro Dallari, 60 anos, vê como um ataque à democracia a postura do presidente Jair Bolsonaro (PSL) em questionar a isenção do grupo e de chamar de "balela" a documentação que aponta mortos durante a ditadura militar.

Dallari ainda chamou a postura do presidente de "melancólica" e afirmou que o país vive um paradoxo, com uma "democracia forte" e um presidente "antidemocrático e de extrema direita".

"O presidente ignora os fatos ao questionar o trabalho da Comissão da Verdade. São declarações melancólicas que expressam desconhecimento sobre o assunto", afirmou Dallari.

Professor titular de Direito Internacional do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), o advogado coordenou o relatório final da Comissão da Verdade, entre novembro de 2013 e dezembro de 2014.

Sobre a declaração de Bolsonaro de que Fernando Santa Cruz, pai de Felipe Santa Cruz, presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), foi morto pelo "grupo terrorista" Ação Popular do Rio de Janeiro, e não pelos militares, Dallari disse que o relatório da Comissão contradiz o presidente.

"A Comissão demonstrou no relatório que Fernando, quando desapareceu, estava sob custódia das Forças Armadas. Há dois documentos da Aeronáutica e da Marinha afirmando isso, o que refuta de maneira frontal a posição do presidente."

Segundo Dallari, todo o relatório da Comissão está disponível na internet, incluindo os documentos sobre a morte de Fernando, podendo ser consultados por qualquer pessoa. "O que Bolsonaro fala não tem credibilidade. Os apoiadores dele estão todos envergonhados".

Dallari avaliou ainda como "graves" as declarações de Bolsonaro em razão de o sistema político brasileiro dar ao presidente um papel relevante na condução da vida do país. "O fato de ele ter uma conduta errática e inconsistente gera problemas para o país, que perde".

Na avaliação do advogado, mesmo com as críticas de Bolsonaro, o relatório e a documentação juntada pela Comissão da Verdade "permanecem vivos e servindo para barrar essa insanidade".

"O trabalho foi bem sucedido e é prova de que a própria imprensa sabe que pode pesquisar e encontrar referência lá. Isso não vai desaparecer nunca. Bolsonaro foi refutado de maneira clara", afirmou.