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Impasses geram dúvidas sobre o futuro do Arco da Inovação

Projeto da prefeitura que cresce sobre o mais congestionado cruzamento da cidade

Xandu Alves | a

“Quando o muro separa uma ponte une”. Os versos de Paulo César Pinheiro dão a importância de erguer pontes, como a cidade de São José dos Campos resolveu fazer com o inédito projeto do Arco da Inovação. Mas o título da canção é tão curiosamente premonitório --para o caso de São José--, que chega a assustar. A música se chama “Pesadelo”. A história do Arco da Inovação ou da Ponte Estaiada, embora ainda curta para um projeto dessa magnitude (tem pouco mais de um ano), já teve de tudo um pouco.

Lançamento festivo, críticas, embates com Defensoria Pública e Ministério Público, questionamentos da viabilidade, paralisações, informações erradas, polêmicas e muita reclamação. Jogando tudo no liquidificador, nasce uma ponte que cresce a cada dia, por cima do mais congestionado cruzamento da cidade: 180 mil veículos diariamente, com 13 mil automóveis nos horários de pico.

Ainda circulam por lá 18 linhas de ônibus para 60 mil passageiros, em 1.246 viagens. A ideia da prefeitura é construir dois viadutos na rotatória do Colinas Shopping, ligando as avenidas Jorge Zarur (sentido bairro) e Cassiano Ricardo. Os acessos fi carão em formato de “X”. O viaduto inferior terá 267 metros de comprimento e o superior, 349 metros.

O mastro central será construído com 100 metros de altura. O complexo viário terá ainda uma ciclovia de 3,6 quilômetros de extensão, que ligará a avenida Linneu de Moura à passarela da Via Dutra. Sustentada por cabos, daí o nome “estaiada”, a ponte vai custar R$ 48,5 milhões de recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), dos quais R$ 15,7 milhões já foram empenhados até 13 de julho, com 32,52% das obras encaminhadas.

Segundo a prefeitura, a obra é “única no Brasil em arco e curva” e conta com “método de construção mais eficaz e econômico, além de ser menos agressivo ao meio ambiente”. Atualmente, 228 trabalhadores atuam na obra. A expectativa da prefeitura é de entregar a ponte em dezembro deste ano, como um presente de Natal para a cidade. “Não tenho dúvidas de que essa é uma obra que vai impactar na vida de muita gente. Ela vai ter um impacto social muito grande”, disse o prefeito de São José, Felicio Ramuth (PSDB), quando do lançamento do projeto, em abril de 2018.

VIA CRUCIS

Aposta do governo municipal para desafogar o trânsito, a obra ficou suspensa por 11 dias em fevereiro, por decisão judicial. No final daquele mês, a Justiça revogou a paralisação, concedida de forma liminar a pedido do Ministério Público. A liberação ocorreu depois de um “mea-culpa” do prefeito. O juiz Silvio José Pinheiro dos Santos aceitou os argumentos da prefeitura, de que os dados apresentados anteriormente pelo próprio governo Felicio Ramuth, e que levaram “à medida extrema” de paralisar a obra, estavam equivocados.

Isso mesmo. Dados no projeto da maior ponte da cidade estavam errados. As primeiras informações repassadas pela prefeitura ao MP apontavam que, com a construção da ponte, já em 2020, o nível de serviço das vias, em três dos quatro sentidos, estaria pior do que hoje, sem o “Arco da Inovação”. Ou seja, o desafogo do trânsito duraria menos de um ano. No entanto, a prefeitura contrainformou que os dados de 2020 não eram referentes a um cenário com a ponte, mas sim de um problema que seria enfrentado se a obra não fosse realizada.

Põe a ponte no cenário, tira a ponte do cenário. Além disso, e ao lado de muitas reclamações de moradores e ambientalistas, o engenheiro civil Ronaldo Garcia defende um projeto alternativo ao Arco da Inovação. Gerente do projeto do Anel Viário de São José e ex-diretor técnico da Urbam (Urbanizadora Municipal), Garcia sustenta o projeto de Felício não resolve o problema de tráfego no principal ponto de congestionamento da cidade. Segundo ele, a obra “não permitirá todos os movimentos no tráfego” e que a manutenção dos semáforos no cruzamento “impedirá o fluxo livre do trânsito, não eliminando os congestionamentos”.

“No meu modo de ver o projeto tem dois problemas: não elimina o semáforo e trava qualquer ampliação posterior, reduzindo as opções para o futuro”, disse Garcia. A prefeitura não deu muita bola aos questionamentos do engenheiro e disse que o projeto resolveria, sim, o problema do trânsito. Vida que segue. Mas a construção da ponte pode ser paralisada de novo.

Em junho, o Ministério Público pediu a suspensão da obra enquanto não é realizada uma perícia para avaliar a capacidade funcional da ponte. MP e Defensoria Pública contestam a efetividade do projeto. O pedido foi negado pelo Tribunal de Justiça, em caráter liminar, mas o mérito ainda não foi analisado pela 7ª Câmara do Direito Público. Como um pesadelo inacabado, a construção da ponte segue enquanto as surpresas vão aparecendo pelo caminho.