Lobato no alvo: afinal, escritor taubateano era ou não era racista?

Em tempos de cultura de cancelamento na redes sociais, um tema tem voltado à tona. Afinal, o escritor taubateano Monteiro Lobato era ou não era racista? Muitas obras dele, na primeira metade do século 20, usavam termos que hoje seriam considerados preconceituosos. Inclusive, com as obras se tornando de domínio público, muitas editoras reescreveram os livros sem os termos racistas ou então colocaram uma explicação no rodapé.

Apesar da polêmica, Lobato é considerado o escritor mais querido do Brasil, à frente de nomes como Machado de Assis.

A questão chegou a ser tema de debates em artigos publicados na última semana pelo jornal Folha de S.Paulo, onde Marcelo Coelho diz que é 'terraplanismo' dizer que Lobato não era racista, enquanto Cilza Bignotto e Ana Brandão, no mesmo espaço dedicado aos artigos, defendem que ele não era racista.

Cilza, inclusive, ressalta que Monteiro Lobato transformou o Saci Pererê no primeiro herói negro para crianças no país.

Em Taubaté, Pedro Rubim, criador do Almanaque Urupês e leitor das obras de Lobato desde 1977, entende que o escritor não é totalmente racista. "Não. Ou foi tão racista quanto a gente da geração dele. Ele escreveu coisas que hoje consideramos racistas, porque sempre foram. Temos o conforto do tempo e espaço para analisarmos a trajetória dele. É evidente que ele era um civilizador. Não era um cara desprovido de preconceitos. Imagino que pouca gente daquela época o fosse. Mas acertou muito mais do que errou", disse Rubim.

"É evidente que escreveu coisas que consideramos racistas, sim. Quem foi criança naqueles tempos sabe que era um assunto debatido em sala de aula. Não com o vigor que é feito hoje em dia. A primeira geração que leu Lobato ainda era numerosa. Eram nossos avós", ressalta Rubim.

RACISMO.

O ativista negro João Vitor Souza, de São José dos Campos, entende que Monteira Lobato era, sim, racista. Para ele, a medida de censurar ou reescrever frases e trechos de obras é "paliativa".

"Precisamos entender que a obra literária não pode se descolar do seu recorte sócio-histórico, e deve se apresentar na íntegra e ser mostrada como um exemplo do pensamento cultural e acadêmico da época. Retirar expressões racistas não vai tornar a obra de Monteiro Lobato menos racista. Ela é estruturalmente racista pois o Vale do Paraíba no início do século 20 ainda reproduzia em seu meio acadêmico, no qual se insere Lobato, as ideias eugenistas e teorias raciais discriminatórias que vinham disfarçadas de ciência", disse.

"Uma vez racista, sempre racista. Devemos olhar para ela, entendê-la e usá-la como exemplo, para demonstrar de que formas o racismo se fazia presente e como era socialmente aceita sua difusão", afirma o ativista.

Levantamento de 2011 coloca taubateano como o escritor brasileiro mais admirado

Polêmicas à parte, o escritor taubateano Monteiro Lobato continua sendo o autor mais influente na lembrança dos leitores, de acordo com a pesquisa Retratos da leitura no Brasil, coeditada com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. A primeira, feita em 2007, já havia colocado o escritor no topo. Depois, em 2011, se manteve no mesmo lugar. Neste levantamento mais recente, Lobato está à frente de grandes nomes da literatura brasileira. Em segundo lugar, aparece Machado de Assis, um ícone do final do século 19. Depois, apareceram Paulo Coelho e Jorge Amado, em terceiro e quarto lugares, dois nomes da literatura contemporânea do país. Depois, aparece Carlos Drummond de Andrade, falecido em 1987, e Maurício de Souza, mais famoso pelos quadrinhos e também uma referência do público infantil.

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