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Corte de orçamento do Inpe coloca monitoramento em xeque

Com o menor orçamento da sua história recente, o Inpe enfrenta o desafio de sobreviver, e pagar as contas; OVALE mergulha no drama do instituto

12/05/2021 às 00:00.
Atualizado em 01/07/2021 às 00:56
Inpe. Apreensão para a escolha de nova direção (Divulgação)

Inpe. Apreensão para a escolha de nova direção (Divulgação)

O Inpe subiu no telhado? Instituição brasileira de ciência e pesquisa mais respeitada no exterior, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) chega ameaçado aos seus 60 anos.Primeiro de não conseguir encerrar o ano com o atual orçamento, o mais baixo da sua história recente.Segundo de ver seu futuro cada vez mais distante do horizonte, em razão da falta de política pública, interesse e gestão governamental para a instituição, sediada em São José dos Campos.Nos corredores, a sensação é de que o Inpe está sendo desmontado. Literalmente.“Estamos processo de desmonte”, contou um servidor, que não será identificado. “O Inpe está deixando de fazer as coisas que sempre fez, como satélites, missões e até a previsão do tempo. Vai ficar cada vez mais sem recursos”.Sem recursos, apoio e interesse.O fantasma da decadência institucional assombra o Inpe. Mas deixar a instituição de lado assemelha-se a um tiro no pé da ciência brasileira e a um lançamento de pipa sem corda. Periga ficar à deriva, até sumir de vez.“Estão nos enfraquecendo por nada. Também está acontecendo em outras unidades de pesquisa do país, mas é maior e mais complexo no caso Inpe, É desmonte geral. Somos vitrine e, por isso, um alvo mais marcado”, conta o servidor.As duras palavras ganham legitimidade ao analisar os números do orçamento do Inpe, Tais recursos são fundamentais para manter todas as áreas do instituto em funcionamento e ainda investir em novos projetos. Em 2021, porém, tudo isso está sob grave ameaça.De acordo com informações obtidas por OVALE, o atual orçamento do Inpe é o menor desde 2006.

ORÇAMENTO.Os R$ 76 milhões empenhados no orçamento de 2021, sendo R$ 44,7 milhões do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) e R$ 31,2 milhões da AEB (Agência Espacial Brasileira), representam uma queda de 60% em 10 anos e nada menos do que 47% de redução apenas no governo do presidente Jair Bolsonaro, que vai se transformando no principal algoz do instituto de ciências brasileiro.“O governo Bolsonaro parece ter aprendido o que fazer para não ter mais dor de cabeça com os dados de desmatamento da Amazônia publicados pelo Inpe. Vai destroçar o instituto”, escreveu Claudio Angelo, coordenador de Comunicação do Observatório do Clima, em artigo para o site ‘Direto da Ciência’, batizado de “O Inpe é o novo Ibama”.Dessa maneira, o Inep enfrenta a maior ameaça à continuidade das pesquisas e dos trabalhos científicos indispensáveis ao país.

VAI FALTAR LUZ?

O Inpe pode ficar sem energia elétrica em 2021 por falta de dinheiro. Servidores dizem que o orçamento de R$ 76 milhões é insuficiente para terminar o ano.

Para a conta de energia elétrica, que já atrasou em 2021, a projeção é que o Inpe chegue até outubro, isso apertando o cinto. Há chance de verba extra de R$ 3 milhões da AEB (Agência Espacial Brasileira), mas ainda assim insuficiente para as despesas, tais como luz, manutenção e segurança.

“Em novembro já não teríamos mais para pagar”, disse um servidor do Inpe.

Segundo ele, uma das consequências seria o desligamento do supercomputador Tupã, que opera no Cptec (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos), em Cachoeira Paulista. “Há medidas em discussão. A redução mais drástica seria a de desligar o Tupã para reduzir o consumo”.

Sem Tupã, o Cptec perde protagonismo na previsão do tempo, o que já está em curso. O governo pretende deixar esse trabalho para o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) e ao Cptec o mais analítico. “Vai se desfazer”, diz o servidor.

Outra ameaça vem do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que quer levar os programas de monitoramento, queimadas e desmatamento para a pasta dele, reduzindo ainda mais o Inpe.

Investigado por suspeita de facilitar tráfico de madeira, Salles faz o que disse há um ano, em reunião ministerial com o presidente Jair Bolsonaro: aproveitar a Covid para “ir passando a boiada”.

Salles também é investigado por desmonte dos órgãos de fiscalização ambiental na Amazônia e abandono de índios..

Vigilância. Imagem de satélite mostra uma queimada na Amazônia (Divulgação)
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