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'O vírus anda de Ferrari e nós de carroça', diz Mandetta em entrevista exclusiva

Ministro da Saúde no início da pandemia no Brasil, Luiz Henrique Mandetta diz a OVALE que Bolsonaro nunca acreditou no potencial da pandemia e sabotou país

Xandu Alves@xandualves10Publicado em 13/03/2021 às 02:00Atualizado há 24/07/2021 às 03:39
palácio do PLANALTO.rDe acordo com o ex-ministro, presidente Jair Bolsonaro sabotou combate à pandemia (Divulgação)

palácio do PLANALTO.rDe acordo com o ex-ministro, presidente Jair Bolsonaro sabotou combate à pandemia (Divulgação)

O Brasil tinha tudo para ser referência mundial no combate ao coronavírus. A doença chegou com atraso, o SUS (Sistema Único de Saúde) permitia um controle na população e tínhamos preferência na compra de vacinas.

O que deu errado?

Para o médico e ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o presidente Jair Bolsonaro sabotou as vantagens do país. "Ele nunca acreditou no vírus", afirmou em entrevista exclusiva a OVALE. Confira:

O SUS não era vantagem?

O SUS forte era a nossa fortaleza. Esses laboratórios que estão fazendo vacina queriam que o Brasil fosse o primeiro país que recebesse a vacina deles. É que nós somos uma Ferrari para vacinar, uma potência para entregar a vacina.

Temos 340 mil agentes comunitários de saúde e eles sabem onde mora o idoso, onde está o acamado, o cara que sofreu transplante. O Brasil já foi capaz de vacinar seis milhões de pessoas num dia. Nenhum país do mundo faz isso.

Essa fortaleza chamada SUS, de porta de entrada ao sistema, que era o passo que estávamos dando, a gente jogou fora. O vírus está andando de Ferrari e nós de carroça.

O presidente não quis usar?

Ele jamais poderá dizer que foi mal assessorado. Uma das coisas que me angustiava era fazer o presidente prestar atenção na gravidade e quais eram as nossas armas, ao ponto de ter tido uma reunião na casa dele, num sábado, no começo de abril [de 2020], com todos os ministros. Entreguei por escrito o que estava acontecendo e o que poderia acontecer.

Disse a ele que, se o país fosse pelo caminho que estavam apontando, haveria 180 mil mortos no final de 2020. Mas ele não queria saber da verdade. Ouvia médicos que diziam que o vírus ia acabar rápido. Ele é uma pessoa superficial.

O que aconteceu?

Eles quiseram escutar as pessoas que diziam que a doença iria durar seis semanas, que o povo deveria tomar cloroquina e ir trabalhar. Isso era uma tragédia. Na hora que a doença chegasse ao povão e a população fosse em direção ao sistema de saúde, não ia ter sistema se fosse naquele caminho. Eu ficava no Ministério da Saúde, e não pedi para sair, porque cada dia era mais um dia para montar esse enorme quebra-cabeça, que é fazer o SUS de Roraima ao Rio Grande do Sul, de leste a oeste. Ali foi um erro de escutar as pessoas que falavam o que ele queria escutar.

O governo não se preparou para combater a pandemia?

Tínhamos três pilares: proteção da vida, defesa do SUS e as decisões pela ciência, isso montado em eixos. O primeiro era prevenir e o presidente fez questão de boicotar a prevenção. O segundo era o atendimento. Enquanto falávamos que era uma virose e precisava ter o seu ciclo definido, e que não havia remédio, ele pegou um remédio e disse que todo mundo devia tomar. Criou uma falsa medicação. E tínhamos o eixo da testagem para separar os positivos. Ele mandou o Ministério da Saúde não mais testar e trocou toda a equipe e colocou um militar no comando.

Foi boicotando a ponto de os testes acabarem os prazos de validade. No eixo da vacina, da ciência, precisaríamos ter adquirido as vacinas em agosto e setembro. Deveria ter comprado de vários laboratórios. Então, ele boicota e aposta no movimento antivacina. Não há nenhum dos eixos que o presidente tenha colaborado.

Bolsonaro não assumiu a responsabilidade?

Ele jogou a culpa no Congresso, na China, na Organização Mundial da Saúde, em mim, no Supremo Tribunal Federal e agora joga a culpa nos governadores e prefeitos. Daqui a pouco o culpado vai ser o cidadão. Ele [cidadão] vai ser culpado de ter nascido no Brasil. Ele [Bolsonaro] disse para as pessoas não sofrerem, não chorarem seus mortos, o que não é bom. Realmente acho que ali teve uma série de posições contrárias a tudo o que é da natureza humana.

O Brasil teria preferência na compra de vacinas?

De uma Ferrari viramos uma carroça enferrujada. Estamos devagar e só temos uma vacina sendo produzida, que é a do Instituto Butantan. Os laboratórios queriam colocar aqui porque sabiam que somos um país complicado, mas que sabe vacinar muito bem. Se controla a doença aqui, seria o 'cartão de visitas' da vacina deles para o mundo inteiro. Eles queriam um país com o perfil do Brasil e tínhamos capacidade de negociação muito boa, com 215 milhões de pessoas e isso dá uma escala grande. Era o melhor caminho.

Bolsonaro vai ser julgado pela história, pela Justiça ou pelas urnas?

Os fatos estão aí. Ele tem uma máxima de dividir para conquistar. Todo o povo é colocado em situação para dividir.

Não há questão que ele não polemiza. Vai atravessar esse ano com esses radicais que são muito tragados pelos algoritmos e pelas redes sociais.

A tendência é que, quando a gente atravessar essa crise de saúde, e paro sempre para rezar em Aparecida de quem sou devoto, vai ficar nua e crua a enorme crise de educação, dos empregos, da cultura e esporte, das relações exteriores, uma terra arrasada.

E se teve liderança tão ruim para conduzir essa crise na saúde, que vai ser maior do que poderia ser, será que terá condição para liderar o país para esses tipos de crise que demandam muita sofisticação? O primeiro julgamento será das urnas e depois da história.

Como vê a volta do Lula?

O Brasil já vive essa polarização há uma década. Lula e Bolsonaro são a mesma crise, mas com o sinal contrário.

É melhor que isso aconteça agora [elegibilidade do Lula] do que faltando alguns meses para a eleição. Vai dar tempo para esses dois extremos mostrarem a sua cara e para que a população veja que perderá com esses dois extremos. Haverá mais violência, confusão e o país não aguenta mais.

Mais do que nunca a terceira via vai ter que se colocar.

De onde virá essa via?

Virá do povo, da base, do clamor das pessoas. Tem eco na sociedade para isso. O cidadão que não está a fim de embarcar nessa histeria coletiva, que está a fim de trabalhar e estudar. Ele sabe que esse caminho de briga não adianta. Temos uma polarização burra.

O senhor pode ser essa terceira via em 2022?

Parte dessa terceira via eu vou ser. Pode ser o meu nome para conduzir isso, vamos negociar. Se for outro, vou fazer campanha. Quero acreditar no que for melhor para o país.

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