Desmatamento da Amazônia em junho é o maior da série histórica, revela Inpe

Combatidos e atacados pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apontam que a Amazônia perdeu 1.034 quilômetros quadrados de floresta para o desmatamento em junho, recorde para o mês em toda a série história, que começou em 2015.

No primeiro semestre, os alertas do Inpe indicam uma devastação superior a 3.000 km², aumento de 25% ante igual período de 2019.

Os dados do Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real) servem de indicação às equipes de fiscalização sobre onde pode estar havendo crime ambiental.

De acordo com o Inpe, os números não representam a taxa oficial de desmatamento, medida de agosto de um ano a julho do ano seguinte. A previsão é que ela seja ainda maior que a registrada no período encerrado em 2019, até então o maior em 11 anos (leia texto nesta página).

A um mês do fim do período, registros de alertas de desmatamento já são 64% maiores em comparação ao mesmo período anterior: 7,5 mil km² de floresta com sinais de desmatamento contra 4,5 mil km².

Um dos críticos dos dados do Inpe é o próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que sofre pressão para ser demitido em razão da política ambiental do governo, que vem sendo questionada internamente e sofre ameaça de suspensão de investimentos estrangeiros no Brasil por conta dos prejuízos ambientais.

Salles vem sendo criticado desde que se tornou pública uma fala dele durante reunião ministerial, em 22 de abril. Na oportunidade, o ministro disse que o governo deveria aproveitar o momento da pandemia do coronavírus para “passar a boiada”, se referindo a aprovar reformas “infralegais”.

No início de julho, procuradores do MPF (Ministério Público Federal) pediram o afastamento de Salles. Para eles, o ministro age com a intenção de desmontar a proteção ao meio ambiente no país, incorrendo em improbidade administrativa.

“A permanência de Ricardo de Aquinno Salles no cargo de Ministro tem trazido, a cada dia, consequências trágicas à proteção ambiental, especialmente pelo alarmante aumento do desmatamento, sobretudo na Amazônica”, diz a ação de 126 páginas, assinada por 12 procuradores.

Em contrapartida, Salles anunciou que pretende lançar um programa que estabelece a participação de empresas estrangeiras no esforço de preservação da Amazônia.

RETÓRICA.

A medida é uma das tentativas do governo de reverter a imagem ruim da política ambiental no exterior.

No fim de junho, um grupo de investidores estrangeiros enviou carta aberta a embaixadas brasileiras de vários países manifestando preocupação com a política ambiental.

Em entrevista à BBC News Brasil, o ambientalista e pesquisador Carlos Rittl, ex-secretário-executivo do Observatório do Clima, disse que o governo brasileiro não conseguirá evitar a saída do país de investidores estrangeiros apenas mudando de retórica sobre o assunto.

Desmatamento da Amazônia é o maior desde 2008, apontam os dados do Inpe

O desmatamento na Amazônia apontado pelo Inpe no período de 12 meses (10 mil km²) é o pior desde 2008, quando o Prodes revelou uma perda de 12.911 km². Desde então, o desmatamento da região sempre esteve abaixo dos 8 mil km². O menor valor foi obtido em 2012: 4.571 km². A partir de maio do ano passado, o desmatamento disparou. Foi quando os alertas do Deter, outro sistema de monitoramento do Inpe, começaram a ser destacados na imprensa estrangeira levando o presidente Jair Bolsonaro a colocar em dúvida os dados do Inpe. Ele chegou a dizer que os números eram mentirosos e que o então diretor do instituto, Ricardo Galvão, estaria "a serviço de alguma ONG". Galvão retrucou e acusou Bolsonaro de ser "pusilânime e covarde". Ele acabou exonerado do cargo.

Em nota técnica, pesquisadores do Inpe revelaram preocupação com o impacto que esses cortes poderiam ter sobre as queimadas. "Sabemos que essas áreas desmatadas são posteriormente queimadas, e em um clima mais seco, podem causar incêndios descontrolados", apontou o grupo liderado pelo pesquisador Luiz Aragão. Nos corredores do Inpe, a opinião não mudou muito. Um pesquisador ouvido por OVALE, sob anonimato, classificou de "desastrosa" a política ambiental do governo.

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