'Uso político da cloroquina é desinformação', apontam cientistas da Unicamp

Boletim do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências, da Unicamp, diz que a 'desinformação sobre cloroquina enfraquece o isolamento social'

Xandu [email protected] | @jornalovale

Corrida às farmácias, automedicação, desabastecimento em hospitais, aumento de custos de insumos na fabricação e acidentes graves.

Essas foram as consequências do "uso político da desinformação" relacionada à cloroquina como forma de tratamento para a Covid-19, segundo cientistas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Quatro deles assinam o boletim 'Covid-19: Cloroquina e o uso político da desinformação' do Departamento de Política Científica e Tecnológica, do Instituto de Geociências.

Além disso, eles apontam que a "campanha de desinformação" em torno da cloroquina "enfraqueceu o isolamento social", considerado o mais eficaz meio de combater a disseminação do coronavírus.

"Os pacientes que fazem o uso contínuo desse medicamento não conseguiram encontrá-lo nas farmácias e ele foi e continua sendo promovido como alternativa para medidas de proteção como o isolamento físico. O medicamento possui efeitos colaterais e seu uso não deve ser indiscriminado", apontam os cientistas.

"A campanha de desinformação em torno da cloroquina resultou até mesmo na criação de grupos que distribuem o medicamento sem acompanhamento médico, além de fortalecer a militância de grupos contrários às políticas de isolamento. Esse movimento ocorre simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos."

Assinado pelos professores Leandro Tessler e Leda Gitahy e as doutorandas Marina Fontolan e Dayane Machado, todos da Unicamp, o boletim faz uma distinção entre desinformação e fake news.

No caso da cloroquina, não é apenas a divulgação de notícias falsas, mas de informação distorcida criada deliberadamente para prejudicar e manipular opiniões.

A droga é conhecida entre os médicos há anos e usada, com sucesso, no controle de doenças como a malária, a artrite reumatoide e o lúpus.

"Os pacientes que recebem tratamento contínuo com essa droga são monitorados constantemente, uma vez que ela pode apresentar efeitos colaterais graves como cegueira, problemas cardíacos, disfunção hepática e redução na quantidade de glóbulos brancos", aponta o documento.

Segundo os cientistas, a "cadeia de desinformação" em torno da cloroquina começou com um estudo observacional preliminar apontando efeitos benéficos no tratamento de pacientes graves, descrito por um grupo de Wuhan, na China, no início de março.

"O trabalho chamou a atenção de um investidor e de um advogado, que escreveram um dossiê baseado em evidências muito frágeis sobre o assunto", diz o boletim.

O dossiê foi publicado no Google Docs --mais tarde retirado por violação dos termos da plataforma-- e anunciado no Twitter, iniciando uma "cadeia de desinformação que cresceu rapidamente".

A repercussão levou o presidente dos EUA, Donald Trump, a dizer que a droga "mudaria o jogo". Ele foi seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que determinou que o Exército passasse a produzir comprimidos de cloroquina.

"A defesa da cloroquina tem sido associada à rejeição de medidas de proteção, como isolamento e uso de máscaras, e ao negacionismo da doença, o que induz pessoas a se exporem, acelerando o ritmo de transmissão".

'Não há evidências que justifiquem o uso da cloroquina na Covid-19', diz boletim

O boletim da Unicam concluiu que não há evidências que justifiquem o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina para a profilaxia ou para o tratamento da Covid-19.

Para tanto, os cientistas apontam um novo estudo realizado em hospitais do Serviço Nacional de Saúde Britânico.

"Esses medicamentos não teriam sido usados se não fosse sua associação com posições políticas vinculadas a uma agenda que confronta as recomendações de cientistas e organismos internacionais. Essa agenda se difunde apoiada pela confusão causada pela pandemia de desinformações", dizem.

No Vale, o prefeito de Guaratinguetá, Marcus Soliva, disse estar seguro em indicar a cloroquina para pacientes no estágio inicial da doença mesmo sem embasamento científico.

Assinar OVALE é

construir um Vale melhor


OVALE nunca foi tão lido. São mais de 23 milhões de acessos por mês apenas nas plataformas digitais, além da publicação de quatro edições impressas por dia. O importante é que tudo isso vem sempre com o DNA editorial de quem é líder em todas as plataformas, praticando um jornalismo profissional, independente, crítico, plural, moderno e apartidário. Informação com credibilidade, imprescindível para a construção de uma sociedade mais livre e mais justa, em um tempo em que a democracia é posta em risco por uma avalanche de fake news. Aqui a melhor notícia é a verdade. E nós assinamos embaixo. Assine OVALE e ajude-nos a ampliar ainda mais a melhor cobertura jornalística da região.