Faces da pandemia: vítimas do coronavírus deixam sonhos, projetos de vida e trabalhos inacabados

Exame para confirmar a morte por suspeita de coronavírus atrasam e parentes enterram seus entes queridos sem um adeus

Da redaçã[email protected] | @jornalovale

Eles deixarão saudades.

"Foi um homem bom e admirável, dedicado à família, aos amigos. Fez a diferença no mundo. Fez o bem", escreveu um familiar sobre o homem de 64 anos que morreu vítima do coronavírus no Vale do Paraíba. Ele é uma das vítimas confirmadas.

A história dele se soma a de tantos outros que perderam a vida para o Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus e que desafia a medicina, na região, Brasil e no mundo.

Um rapaz sonhava em ser chef de cozinha. Um professor ajudava estudantes a pagar custos com a educação sem que ninguém soubesse. A mulher era apaixonada por música, a ponto de dedicar a vida a ela. Outra mulher cuidava da segurança nas ruas.

Eles não se conheciam, mas um traço em comum uniu suas histórias de vida.

São vítimas da epidemia do coronavírus e morreram em decorrência de complicações causadas pela doença.

A história do gastrólogo Matheus Aciole, 23 anos, repercutiu no Brasil por ser ele, até o momento, a mais jovem vítima da covid-19. Ele morreu na terça-feira (31) em um hospital de Natal, no Rio Grande do Norte.

Com sintomas de coronavírus, ele havia procurado uma unidade de saúde uma semana antes e foi diagnosticado como positivo.

Criado em uma família de confeiteiros, ele cresceu dentro de uma fábrica de bolos artesanais e sonhava em ser chef, além de abrir um bistrô. Segundo parentes, ele tinha uma pequena empresa de bolos e doces, cursava a faculdade de nutrição e, em paralelo, uma pós-graduação em gastronomia.

O professor Luiz Di Souza, 61 anos, foi descrito pelos familiares e amigos com "um homem inteligente e cientista nato" e "muito bondoso". Depois que ele morreu por causa da covid-19, descobriu-se que ajudava seus alunos pagando do próprio bolso cursos e eventos.

Ele foi homenageado pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, onde lecionou por mais de 20 anos.

A 1ª sargento Magali Garcia tinha 46 anos e trabalhava no Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) em São Paulo. Ela foi a primeira policial militar a morrer em razão da doença no estado. Ela foi internada com sintomas do coronavírus, como pneumonia.

Nas redes sociais, amigos e familiares divulgaram fotos e escreverem textos em homenagem à policial. "Pessoas maravilhosa, apaixonada pelo trabalho, vai fazer muita falta".

ADEUS.

"Cleuza Fernandes da Silva, presente!". A frase é acompanhada de fotos da ambulante de 32 anos que morreu na região metropolitana do Rio de Janeiro, vítima de covid-19.

Ela trabalhava na rodoviária de Rio Bonito e era conhecida pelo bordão "toda hora sai", em referência à venda de bananadas. Sentiu os sintomas da doença em 8 de março e foi internada dois dias depois, com insuficiência respiratória e parada cardíaca. De acordo com a prefeitura, a vítima era portadora de doença crônica.

A ambulante não era casada e deixou três filhos que eram cuidados por sua mãe.

Exame para confirmar a morte por suspeita de coronavírus atrasam e parentes enterram seus entes queridos sem um adeus

Famílias do Vale do Paraíba têm passado por uma situação angustiante nos últimos dias: não poder se despedir adequadamente de seus entes queridos que morreram. A situação está relacionada à pandemia do coronavírus, que modificou procedimentos e protocolos em quase todas as áreas da saúde pública.

Devido ao quadro clínico verificado antes da morte, essas pessoas entraram na lista dos casos suspeitos para o novo coronavírus. O diagnóstico desses casos com suspeita de covid-19 demora mais do que o normal por também estar na fila de exames represados em laboratórios e institutos públicos do Estado.

Eram 16 mil exames na fila na última semana, com 200 de pessoas que morreram por suspeita de Covid-19.

EXAMES.

José Henrique Germann, secretário estadual de Saúde, declarou em coletiva que 180 exames de pessoas mortas haviam sido feitos até a sexta-feira, e que o restante estava em processo final de análise. A taxa de positividade nestes casos girava em torno de 20%.

Sem ter a certeza de que o parente morreu em decorrência da Covid-19, o enterro dessas pessoas, seguindo protocolos sanitários, passou a ser realizado com cuidados extras e restrições.

A principal é a de evitar contato com o corpo, o que impediu famílias de se despedirem de seus entes com o caixão aberto, por exemplo, prática comum em velórios da região. OVALE conversou com três famílias que vivenciaram essa situação no Vale nos último dias. Elas pediram para não ser identificadas e que o nome

do familiar morto não fosse revelado.

ANGÚSTIA.

O sentimento é de total angústia e de revolta, em alguns casos. “Nem ao menos o corpo vimos. E se não foi ele no caixão?”, questionou uma parente de um dos mortos que entrou na lista de suspeitos do coronavírus na região.

Com doença anterior, a família disse que tem certeza de que ele não morreu de Covid-19. Os familiares também dizem que não foram orientados a manter quarentena.

Outra família passou pela mesma situação e reclama da demora em sair o exame do coronavírus. “Enterramos sem olhar uma última vez para o rosto dele. Foi cruel para todos nós. É como se estivesse desfigurado”, contou um familiar.

O irmão de uma das vítimas disse que a família esperou até o último momento a chegada do exame sobre o coronavírus, que constaria no atestado de morte. Sem o documento, o sepultamento foi feito com o caixão fechado. “Minha mãe ficou muito chateada e triste. Ela não via meu irmão com frequência e isso a deixou muito consternada”, contou.

DEMORA.

OVALE questionou prefeituras e a resposta é que o teste é feito pelo Estado e que o resultado demora a sair. O governo estadual vem dizendo que está tomando medidas para zerar a fila de exames, com prioridade aos casos graves e as pessoas que morreram.

'Toda crise tem que servir para que a gente evolua como pessoa', diz psicóloga

De quarentena em um sítio a 300 km de São José dos Campos, a psicóloga Fabiana Luckemeyer acredita que a pandemia do coronavírus vai provocar mudanças profundas em muitas pessoas. Na maioria dos casos, para melhor. "Num momento desses, não tem como não mudar. Com essa adversidade tão radical não tem como as pessoas não se modificarem. Mas algumas pessoas, por pessimismo, traumas passados ou histórico de vida, não conseguem enxergar o lado bom de uma situação ruim".

Aos que conseguirem, ela espera que façam mudanças substanciais em seu modo de viver. Fabiana vê na obrigatoriedade de ficar em casa e de preservar os idosos elementos para alterar comportamentos. "Momento de muita humanização, generosidade, paciência, tolerância"..

Pacientes graves, profissionais de saúde e óbitos são prioridade em exames

Coordenador da rede de laboratórios para diagnóstico da covid-19 e diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas aposta em mutirões para zerar a fila para exames de coronavírus, que chega a 16 mil testes represados. Na sexta-feira (3), Covas disse que mais três laboratórios foram habilitados a participar da rede de 13 órgãos que estão fazendo testes para coronavírus no estado. Há ainda três laboratórios privados que ofereceram instalações para exames do governo estadual.

O Estado também acertou com a Coreia do Sul a importação de 1,3 milhão de testes que devem chegar até 15 de abril. “Estamos discutindo a melhor maneira desse material vir para o estado”. Com a chegada de insumos, o diretor disse que a fila deve ser zerada. “Prioridade são pacientes graves, profissionais

de saúde e óbitos.”

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