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Municípios lutam para não serem 'riscados' do mapa

Dois dos menores municípios do Vale, Natividade da Serra e Redenção da Serra nasceram e morreram mais de uma vez. O surgimento se deu na segunda metade do século 19 e a primeira morte nos anos 1970.

Após o renascimento, hoje os moradores tentam evitar a segunda morte: o esquecimento.

Ambos os municípios estavam no caminho do imenso reservatório de Paraibuna, que seria construído pelo governo estadual para garantir energia ao Litoral Norte. Abortado, o projeto deu lugar à represa que virou a principal reguladora da vazão do rio Paraíba do Sul, nascido pela confluência dos rios Paraitinga e Paraibuna.

Os municípios estavam na área que seria alagada pela represa, e teriam que sair dali. Os mais velhos contam que a história do alagamento circulava desde 1926, meio como boato. A narrativa tomou forma a partir de 1960 e chegou de vez na década seguinte.

“Quando a represa veio, não era novidade. Os mais velhos diziam: ‘Meu pai nunca fez uma casa boa porque um dia viria a represa’. Era um fantasma na vida das pessoas”, conta a professora aposentada Maria Helena Ribeiro, a Leninha, 66 anos, principal historiadora da vida de Natividade.

O fantasma cresceu e apareceu, assustando os habitantes das velhas cidades de Natividade e Redenção. Como nos pequenas municípios interioranos, ambos os núcleos urbanos formavam-se em torno de estruturas tradicionais como igreja matriz, praça, prefeitura, mercado, escola e comércios.

Tudo isso seria tragado pelas águas da represa. A vida dos povoados seria inundada, e ninguém tinha certeza de como reconstruí-la. Muita gente resistiu até o último momento possível. “A gente via a represa chegando, a água subindo aos poucos. Meu pai e outros não queriam sair. É assustador perder o berço, a casa da gente, é muito triste”, diz Leninha, que nasceu em Liberdade (MG), mudou-se para Redenção ainda criança e depois para Natividade, em 1980.

Pois a água chegou. Com as indenizações insuficientes, segundo moradores, eles tiveram que levar, tijolo a tijolo, a casa da cidade velha para a nova. Muitos não terminaram a residência até hoje.

Segundo o jornalista João Carlos de Faria, de 59 anos, de Redenção, o turismo foi a principal promessa do governo para convencer os moradores a aceitarem a obra. Com a represa, os municípios se desenvolveriam calcados no turismo. Não foi o que ocorreu.

“Não podemos contar com a represa, pois está cheia num dia e baixa em outro. A paisagem da imensa lagoa de frente para a cidade como o governo defendia só existe parcialmente. Nunca foi como disseram.”

Com a vida cindida pela represa, hoje o sentimento é mais de desalento do que de esperança. Os mais velhos se apegam às lembranças da cidade velha enquanto os jovens buscam carreira fora de Natividade e Redenção. Porém, os moradores continuam lutando para permanecer no mapa.

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