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Movimento em Redenção tenta restauração da igreja matriz, símbolo da resistência cultural

 Os sinos tocam sem parar. A melodia retumba pela praça da cidade velha de Redenção da Serra, um dos menores municípios do Vale do Paraíba.

Reinaldo de Almeida Abadia, o Renatão, revela sua destreza em soar música por meio dos sinos que tocara tantas vezes como sacristão, na cidade velha. Mas a igreja está morrendo, e um povo tenta mantê-la viva em sua história.

A velha Igreja Matriz de Redenção da Serra, dedicada a Santa Cruz, é o símbolo visível da resistência de um povoado em nome da glória, e da tristeza, de seu passado.

Construído em 1882, o templo era parte viva do coração da cidade que surgira às margens do caminho para o litoral, emancipada em 1860. A frondosa matriz nascera pequena na capela de Santa Cruz do Paiolinho, semente do município.

Em novembro de 2017, o Instituto Cultural Santa Cruz do Paiolinho, criado um ano antes pelo jornalista João Carlos de Faria e a professora Ana Néri do Carmo de Faria, de Redenção, organizou o evento “Salvem a Minha História”.

Tratava-se de manifesto pela restauração da igreja, que corria o risco de cair. Só não caiu porque a Cesp (Companhia Energética de São Paulo), responsável pela represa de Paraibuna, investiu R$ 1,2 milhão na reforma estrutural do templo. Mas o povo quer restaurá-la.

“A população está ansiosa em ver a Igreja revitalizada”, diz Ana Néri, 53 anos, que nasceu a poucos metros da igreja. “Eu nasci na praça, na cidade velha, onde tudo acontecia. A convivência era harmoniosa”.

A luta pela restauração da igreja é mais do que um resgate do patrimônio histórico. É a tentativa de não deixar morrer o passado de Redenção, afogado nas águas da represa.

Para surgir o reservatório, em 1973, a cidade velha de Redenção precisou desaparecer e ressurgir na cidade nova, nos morros ao redor da represa. Porém, boa parte dos costumes ficou para trás em meio às dificuldades, principalmente financeiras, de reconstruir a cidade.

“Tínhamos praça, cinema e mercado na cidade velha, e não temos mais nada. Todo mundo se conhecia e frequentava a cidade velha, o que se quebrou na cidade nova. Não temos mais esses lugares para a convivência”, explica Ana Néri.

Segundo ela, estudo feito por um arquiteto avaliou em cerca de R$ 5 milhões o custo para recuperar todo o centro da cidade velha, incluindo a igreja, o casarão da prefeitura e a reconstrução da praça. “Estamos na luta ao menos pela igreja”.

Em sites, moradores resgatam história das cidades velhas contra esquecimento

A tecnologia tornou-se a grande aliada de moradores de Redenção e Natividade preocupados em guardar a memória dos municípios. Por meio de sites e páginas nas redes sociais, eles mantêm um acervo considerável sobre a história dos municípios afetados pela construção da represa de Paraibuna.

Valdecir Santos criou o "Resgatando a História de Natividade da Serra" no Facebook e põe ali fotos antigas e histórias da velha cidade que desapareceu sob as águas da represa. "Ao longo da história, há cidades que desapareceram. Natividade não foi por causas naturais, mas pela ganância". Em Redenção, João Carlos de Faria e Ana Néri, do Instituto Paiolinho, criaram a página "Redenção de Todos os Tempos" para manter viva a memória da cidade.

Em Natividade, dupla Chitãozinho e Xororó vende relógio para pagar carro

Antes de a represa mudar a vida em Natividade da Serra, o circo "Qristian" passou por lá para alegrar os moradores. Era uma sexta-feira e a principal atração era uma dupla caipira em início de carreira: Chitãozinho e Xororó.

Segundo relatos de moradores, seis pessoas estavam na portaria do circo. Duas decidiram entrar. Claro, a apresentação foi cancelada. E isso não foi o pior para os cantadores. O carro deles quebrou na cidade e eles venderam um belo relógio de pulso para pagar o conserto. Anos atrás, já nacionalmente famosos, a dupla contou a história na TV na tentativa de recomprar o velho relógio. Moradores de Redenção contam que o objeto foi comprado por um homem especialista em fazer "rolo", e que nunca mais se soube do paradeiro do relógio.

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