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Ditadura, falta de apoio e ameaça de desaparecimento: 'heróis' enfrentaram governo por sonho de reconstrução

A reconstrução de Natividade da Serra e Redenção da Serra foi um ato de resistência dos moradores em plena ditadura.

O governo estadual convenceu ambas as cidades a aceitarem a obra, mas o apoio prometido nunca veio. Nos bastidores, o movimento foi de pressão e tentativa de silenciar os críticos. As cidades renasceram quase que por teimosia de alguns.

“O governo não deu apoio para mudar a cidade. Na verdade, nem queria uma nova cidade. Queria realocar a população para outros municípios. A reconstrução foi um movimento de resistência da população. Nunca houve uma união tão grande”, conta João Carlos de Faria, jornalista de Redenção e presidente do Instituto Cultural Santa Cruz do Paiolinho.

Aos 95 anos, o médico Neymar Neves de Azevedo é um desses “heróis” da população de Redenção no movimento de resistência.

Azevedo elegeu-se prefeito por consenso entre os partidos de situação e oposição para liderar a reconstrução de Redenção. Criou o Comitê de Extensão Rural para organizar a população e a cidade nova. “Começamos a luta junto ao governo estadual para ter uma nova área, e a primeira oferta foi de 1,5 milhão de cruzeiros. Não dava para fazer nada”, conta Azevedo em uma entrevista por vídeo de 2013.

Sem apoio de outras cidades do Vale, a não ser Natividade, Azevedo percorria os corredores do governo paulista, na época comandando por Laudo Natel, ainda vivo e com 98 anos, para tentar recursos e reconstruir Redenção.

“Não tínhamos condições de reclamar, porque estávamos na ditadura, tinha que bater palma e aplaudir. Quando voltava da capital me sentia um lixo. Não conseguia nada. Fomos pressionados para aceitar”, conta o médico, que era aconselhado pelos governantes a “não dizer o que ouvia”.

Do lado de Natividade, o ex-prefeito Octacílio Fernandes da Silva e o padre Hygino Corrêa foram ameaçados de prisão pelas constantes tentativas de reconstruir a cidade.

Segundo Maria Helena Ribeiro, a Leninha, o prefeito dizia: “Podem me prender e até me matar, mas vou construir uma cidade para meu povo”.

“Laudo Natel veio de helicóptero em Natividade e viu as casinhas começando, virou as costas e foi embora, não tinha mais como lutar contra o renascimento da cidade”, diz ela.

Em Redenção, uma placa na fachada da prefeitura dizia: “Com a graça de Deus e a união do povo construiremos uma nova Redenção”.

Médico e padre se unem em Redenção pela reconstrução da cidade nos anos 70

Obrigado a renunciar após ser vítima de um golpista, o médico Neymar Neves de Azevedo, ex-prefeito de Redenção da Serra nos anos 1970, conta que a luta pela reconstrução da cidade foi marcada por um "senso de responsabilidade, um peso muito grande", mas que ele se sente "às vezes desiludido". "A pressão era muito grande. Não tinha apoio lá em cima e o povo cobrando. Temos mágoa de Natel até hoje", diz Leninha.

Outro herói de Redenção foi o padre José Knob, que completou 50 anos de sacerdócio em 2019. Ele viveu na cidade por 25 anos. "Ele construiu a Igreja no peito, pegava no pesado e ainda motivava a população para não desistir. É uma referência de fé e de resistência", conta o jornalista João Carlos de Faria.

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