Cristiane Prizibisczki- Precisamos cuidar melhor da natureza

alumni da Universidade de Cambridge |

Cristiane Prizibisczki |

Jornalista formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina) |

A visita de um lobo-guará a São José dos Campos, na última semana, movimentou as redes e divertiu muita gente, que relacionou a presença do animal na cidade à sua recente fama, alçada por ele ter sido escolhido para estampar a nota de R$200. Mas a presença do animal na área urbana do município é sinônimo de alerta. A Mata Atlântica, bioma no qual São José está inserida, não é a área de ocorrência original do lobo-guará. Seu habitat de origem é o Cerrado, a chamada "Savana Brasileira".

Com a devastação do Cerrado ao longo dos últimos séculos, o lobo-guará foi migrando para outras áreas e hoje parte de sua população pode ser encontrada em campos abertos da Mata Atlântica e em enclaves de Cerrado dentro do bioma, como os encontrados em paisagens dos altos da Serra da Mantiqueira.

Ainda que São José dos Campos tenha porções de Cerrado - daí o nome "Campos", inclusive - os lobos-guarás também encontraram morada em áreas de floresta original que foram desmatadas e onde a vegetação encontra-se em lento processo de regeneração. Área que nós, humanos, modificamos e que são comuns aqui no Vale.

O fato de o lobo ter chegado ao centro da cidade também é culpa nossa. Nesta época seca, em que os alimentos ficam mais escassos, os lobos-guarás tendem a se movimentar mais em seus territórios. O problema é que esta é também a época de queimadas e preparação da terra para plantio. Ao se deparar com o fogo ou o som de tratores, os lobos se assustam e acabam se aproximando cada vez mais da periferia das cidades.

Uma vez no limite entre mata e área urbana, esses animais se perdem ou são acuados por cachorros domésticos, entrando cada vez mais na zona urbana. Esta é a hipótese mais provável para explicar a presença do lobinho em ruas e avenidas tão centrais de São José.

Não preciso nem dizer que, uma vez na cidade, o animal está sujeito a todo tipo de risco, o atropelamento sendo o maior deles. Mas, segundo especialistas, esta é apenas uma das fases do martírio do lobo.

A espécie é bastante territorialista, isto é, gosta de viver sempre num mesmo lugar. Depois de capturados, geralmente os lobos são soltos em áreas totalmente diferentes da que ele vivia, com outras ameaças, outras relações com novos indivíduos.

A inserção de animais da fauna brasileira nas cédulas do Real foi pensada para aumentar o conhecimento da população sobre as diferentes espécies que habitam o país. Espero que, com o lobo-guará na nova cédula em circulação, nós possamos conhecer mais dos hábitos da espécie, seja para não ficar fazendo piada com situações tão estressantes para ela como se perder no centro urbano, ou para dar destino correto, depois de capturada.

Cristiane Prizibisczki, Jornalista formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), alumni da Universidade de Cambridge

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