Sobre maconha, prostitutas e dinheiro público

Julio Codazzi Editor-executivo dos jornais OVALE e Gazeta de Taubaté |

Nos primeiros meses de 2013, no começo do governo Ortiz Junior (PSDB), escrevi uma série de reportagens sobre casos flagrantes de nepotismo cruzado. Na época, foi uma festa: diversas esposas de secretários municipais ganharam cargos comissionados na Câmara, e parentes de vereadores da base aliada foram abrigados no próprio Legislativo e também na prefeitura.

Em janeiro daquele ano, por exemplo, mostramos aqui no jornal que Denilsa Chisti, esposa do vereador Bilili de Angelis (PSDB), havia ganhado um cargo na prefeitura. Depois, em fevereiro, revelamos que, por indicação do próprio tucano, a cunhada dele, Denilse Chisti, irmã de Denilsa, havia sido nomeada para o gabinete da presidência da Câmara.

Após a revelação feita pelo jornal, a situação ficou insustentável e todos os casos apontados resultaram na exoneração dos parentes de vereadores e secretários.

Na época, após a esposa e a cunhada ficarem sem os cargos, Bilili me disse, ao encontrar comigo numa sessão de Câmara, que desejava que eu tivesse "câncer na boca". Meses depois, me procurou para pedir desculpas. Reconheceu que não era correto desejar que alguém tivesse câncer.

Agora, sete anos depois, o mesmo vereador sobe à tribuna, ao vivo na TV Câmara, e diz que eu fumo maconha e que eu vivo "de empréstimo das primas". Disse: "ele não sai de lá". Prima, para quem não sabe, é gíria para garota de programa, prostituta.

O que motivou o novo ataque do tucano? O fato de o jornal ter revelado, ainda em julho de 2018, o escândalo da 'Farra das Viagens'. Mostramos que, em ao menos 70 viagens feitas em 2017 e 2018, 14 parlamentares apresentaram notas fiscais com despesas de mais de uma pessoa ou com gastos acima do razoável.

Agora, após o Ministério Público pedir o arquivamento das investigações sobre o caso nas esferas cível e criminal, Bilili disse que o jornal publicou 'fake news' e que pretende processar o veículo. Mas não é bem assim. Todas as reportagens sobre o escândalo foram corretas. E o MP só decidiu dessa forma porque os vereadores aceitaram devolver os R$ 14.714,59 recebidos indevidamente. No caso de Bilili foram R$ 1.581,40, por oito viagens com irregularidade.

Sobre os comentários que o vereador fez a meu respeito, digo tranquilamente que são mentirosos, embora eu não tenha a menor intenção de recriminar quem fuma maconha ou paga por sexo. Cada um é cada um. Errado mesmo é se apropriar indevidamente de dinheiro público. Para mim, aliás, esse é o principal câncer do país. Afinal, em vez de ir para o bolso errado, o dinheiro público deveria ser usado para corrigir problemas na saúde, educação, habitação, etc. Mostrar isso é papel da imprensa. E por isso ela sofre ataques de tantos maus políticos..

 

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