Esportes

Brados do silêncio: os 70 anos do Maracanaço

Derrota para os uruguaios até hoje é difícil de ser digerida na alma brasileira

16/05/2020 às 02:00.
Atualizado em 24/07/2021 às 20:30
Tragédia. Imagens da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã; 2 a 1, em uma dolorida virada (Fotos: Arquivo)

Tragédia. Imagens da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã; 2 a 1, em uma dolorida virada (Fotos: Arquivo)

Ghiggia arrancou pela direita, venceu Bigode e, ao invés de centrar, como havia feito repetidas vezes, atirou contra o arco brasileiro, superando Barbosa. Gol. Gol do Uruguai. A jogada, escrita pelo pé direito do ponteiro no verde gramado mítico do Maracanã, durou alguns segundos, mas eternizou-se. Jamais o silêncio bradou tão ensurdecedor. Setenta anos depois, OVALE revisita aquela que, os gols alemães que nos desculpem, é a derrota mais dolorosa já sofrida pelo esporte do Brasil, minimizada apenas após o vexatório 7 a 1 de 2014.

Há poucas imagens sobre o Maracanaço.

Para tentar dar cor à escassa memória em preto e branco, repleta de lacunas, já que a gravação original em vídeo perdeu-se pelo tempo, OVALE recorreu à íntegra da narração radiofônica da partida, disputada em um domingo ensolarado, preparado para a festa, em 16 de julho. “Acaba de ser cantado pela multidão, o hino nacional do Brasil. Um espetáculo de civismo. (...) Foi tirado sorte agora pelo juiz mister Reader, inglês. (...) Ganhou o time uruguaio e Obdulio Varela escolheu exatamente o gol que os brasileiros têm defendido nas outras partidas no primeiro tempo. Portanto, inversão na colocação inicial dos dois times. Mas, não há de ser nada”, diz o narrador antes da partida.

“Tudo pronto para a saída. Caberá a Ademir movimentar o balão. (...) Movimentou Ademir para Jair, bola na frente para Zizinho, retoma, progride na frente para Ademir, Ademir para Zizinho, avança Zizinho, atrás Schiaffino passa por ele, foi para Ademir, para Zizinho, cortou Matias Gonzáles, insiste Zizinho, manda Rodriguez Andrade para córner. Córner contra o Uruguai!”. Assim dizia a narração da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, responsável pela transmissão do jogo.

À Seleção Brasileira, que fazia uma campanha avassaladora, bastava um empate contra a Celeste, na rodada decisiva do quadrangular final.

Havia muito em jogo, não apenas a posse da Jules Rimet, a taça dourada que simbolizava a deusa do futebol. Aos brasileiros, o prélio representava a oportunidade de conquistar o planeta, jogando no recém-inaugurado Maracanã, o maior do mundo.

Tudo era superlativo. O que prometia o doce sabor da glória, tornou-se trauma. Nascia o complexo de vira-lata, sentimento batizado assim por Nelson Rodrigues à época, depois da derrota, referindo-se à sensação de inferioridade do povo brasileiro.

“Prepara Jair, engana Schiaffino, prepara, devolve para Bauer na direita, prepara Bauer, prepara outra vez para Ademir, Ademir levanta então à boca do gol e ninguém fecha sobre Maspoli, que agarra”, dizia o narrador durante o primeiro tempo.

“A bola vai na direção de Augusto, que cabeceia na ponta direita para Friaça, que tentou contra Rodríguez Andrade, mas Zizinho recupera, manda de novo o Brasil ao ataque com Ademir, centrado na entrada da área, empurrou para Friaça, entrou na área, atenção... gol brasileiro! Friaça”

Nas ondas do rádio, 70 anos depois, fica nítida a euforia. Friaça faz 1 a 0. Brasil! Schiaffino empata aos 21 minutos.  Com seu uniforme branco, que seria abandonado após a tragédia, o Brasil avançava com Ademir, Zizinho e companhia. Passados 34 minutos do segundo tempo. “Corre Ghiggia, aproxima-se do gol do Brasil e atira...gol do Uruguai! 2 a 1, ganha o Uruguai”, dizia a narração.

Apesar do baque, o som ambiente mostra que a torcida segue apoiando o time, mesmo com a derrota parcial. E, além disso, ninguém critica o goleiro Barbosa. Cai, também, por terra, o mito de que o estádio ficou em silêncio absoluto após o gol. Mas, depois do jogo, era preciso eleger um vilão. Aí, sim, veio um silêncio sepulcral.

Final de jogo. Taça na mão do caudilho Obdulio Varela.

No coração brasileiro, mesmo 70 anos depois, quando Gigghia corta pela direita, vence Bigode e chuta, na mesma imagem preto e branca de sempre, repetida como um filme contínuo na memória do torcedor, há sempre uma ponta de esperança, de que a pelota toque o poste e perca-se pela linha de fundo. Que pare nas mãos seguras de Barbosa. Mas a bola, assim como a vida, nos ensina que há derrotas que, passe o tempo que for, 90 minutos ou mil anos, ficam tatuadas na alma.

Fim de jogo. Brasil 1 x 2 Uruguai. Pra sempre.

Siga OVALE nas redes sociais
Copyright © - 2021 - OVALETodos os direitos reservados. | Política de Privacidade
Desenvolvido por
Distribuido por