A nova revolta das vacinas: mais de um sculo depois, Brasil vive movimento negacionista mesmo em meio pandemia

H mais de um sculo, o Vale do Paraba estava no epicentro de uma das maiores revoltas populares no Rio de Janeiro, ento a capital do pas, durante a febre amarela no Brasil

A ‘Revolta das Vacinas’, parte 2. Parece nome de filme, mas é a pura realidade, só que 116 anos depois.

Há mais de um século, o Vale do Paraíba estava no epicentro de uma das maiores revoltas populares no Rio de Janeiro, então a capital do país.

Um homem nascido em São Luiz do Paraitinga enfrentava negacionistas e movimentos antivacina para tentar erradicar a varíola no Rio de Janeiro, além da febre amarela.

Parece retrato de 2020, também com seus movimentos negacionistas, de fake news e teorias da conspiração contra vacinas em desenvolvimento para combater a pandemia do novo coronavírus, a maior crise sanitária em 100 anos.

“A grande quantidade de informações de baixíssima qualidade faz com que coisas muito sérias sejam prejudicadas, como a cobertura vacinal”, disse a médica Stella Zöllner, professora e coordenadora pedagógica do curso de Medicina da Unitau (Universidade de Taubaté), além de mestre e doutora em Patologia.

“Também há uma questão de credibilidade das instituições. Há pessoas que acreditam mais no vizinho do que nas instituições”, completou.

REVOLTA DAS VACINAS.

Aos 32 anos, em 1904, o cientista, médico, bacteriologista, epidemiologista e sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), na época diretor-geral da Saúde Pública --equivalente a Ministro da Saúde --, promoveu uma vacinação em massa e obrigatória da população para debelar o surto de varíola.

Jornais lançaram campanha contra a medida, o Congresso protestou e foi organizada uma liga contra a vacinação obrigatória. Em 13 de novembro, estourou a rebelião popular e, no dia seguinte, se levantaram militares da Escola Militar da Praia Vermelha.

O movimento durou seis dias e ficou conhecido como a ‘Revolta das Vacinas’, tendo sido derrotado pelo governo do então presidente Rodrigues Alves (1848-1919), nascido em Guaratinguetá.

A luta de Oswaldo Cruz deu resultado. Em 1908, em uma nova epidemia de varíola no Rio, a própria população procurou os postos de vacinação.

2020.

Um novo filme de terror revive a ‘Revolta das Vacinas’ da época de Oswaldo Cruz, desta vez diante de uma pandemia que já matou quase um milhão de pessoas no mundo.

Mas ao contrário do então presidente e do ministro da Saúde de 1904, ambos do Vale, que defendiam a vacinação em massa, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”.

O que parecia apenas mais uma fala equivocada do presidente virou peça publicitária da Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Presidência), para alegria dos movimentos antivacina no país.

Um dos principais alvos é a CoronaVac, vacina para a Covid-19 desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech e cuja terceira fase de testes ocorre no Brasil, em parceria com o Instituto Butantan, do governo estadual.

A parceria com a empresa chinesa fez a vacina ser taxada de “comunista” e provocando ondas de ataques na internet.

“A nossa corrida é para salvar vidas. A vacina CoronaVac tem se demonstrado uma das mais seguras do mundo. Os ataques são absurdos e sem qualquer fundamento científico”, disse Dimas Covas, diretor do Butantan. A vacina pode estar pronta até o final do ano.

'Movimento antivacinação causa queda na cobertura e tem influência política'

O Brasil não atingiu a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano em 2019, segundo o Programa Nacional de Imunizações. A situação ocorre pela primeira vez em quase 20 anos.

Para Miriam Tendler, médica pela UFRJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e doutora em doenças infecciosas e parasitárias, o movimento antivacinação é a razão da queda da cobertura vacinal e tem influência política.

"A doença é mais rentável do que a saúde. A vacina é a preservação da saúde e as pessoas vão precisar de menos remédios. E existem forças poderosas nesse movimento antivacina, colocando dogmas e mitos que não tem nenhum fundamento", disse ela em live promovida pela ACI de São José dos Campos, ao responder pergunta de OVALE..

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