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Relaxamento do isolamento pode agravar pandemia, apontam especialistas

Pesquisadores apontam que a 'imunidade de rebanho' poderia ser alcançada com 20% da população infectada e que relaxar antes disso pode causar aumento de casos da Covid-19

Xandu AlvesPublicado em 22/07/2020 às 00:00Atualizado há 24/07/2021 às 16:47
Pandemia no centro de Taubaté (Caíque Toledo)

Pandemia no centro de Taubaté (Caíque Toledo)

Estudo estima que o limiar de imunidade coletiva ao novo coronavírus (imunidade de rebanho) pode ser alcançado em uma região se 20% da população for infectada. No Vale do Paraíba, o percentual equivale a 500 mil pessoas e região tem 17,5 mil infectados, segundo números oficiais. Se a quantidade de contaminados for 10 vezes maior, como indicam alguns estudos, a região chegaria a 175 mil pessoas com a Covid-19.

De acordo com os pesquisadores, se a projeção se confirmar, a taxa de contágio apresentaria queda.

Primeiro porque significa que é pequeno o risco de ocorrer uma segunda onda avassaladora da pandemia nos países que adotaram medidas para conter a disseminação da Covid-19 e hoje já registram queda no número de novos casos.

Em segundo lugar porque indica ser possível para uma cidade, estado ou país alcançar o limiar de imunidade coletiva mesmo tendo adotado medidas de distanciamento social que ajudam a evitar o colapso do sistema de saúde e a minimizar o número de mortes.

"Nosso modelo mostra que não é preciso sacrificar a população deixando-a circular livremente para que a imunidade coletiva se desenvolva", disse a biomatemática portuguesa Gabriela Gomes, em entrevista à Agência Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo). O modelo matemático ao qual a pesquisadora se refere foi desenvolvido em colaboração com cientistas do Brasil, Portugal e Reino Unido.

Entre os coautores do artigo estão Marcelo Urbano Ferreira, professor do ICB-USP, o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

"Temos trabalhado juntos com Gabriela Gomes há alguns anos usando essa abordagem para descrever a dinâmica de transmissão da malária na Amazônia brasileira. O modelo é diferente dos demais, pois leva em conta o fato de que o risco de contrair uma determinada doença varia de pessoa para pessoa", explicou Ferreira.

Gomes disse que os fatores que influenciam o risco de contágio para Covid podem ser divididos em duas categorias. Em uma delas estão os de ordem biológica, como a genética, a nutrição e a imunidade. Na outra se inserem os fatores comportamentais, que determinam o nível de contato com outras pessoas que cada um de nós tem no cotidiano.

"Isso tem relação com o tipo de ocupação, o local de moradia, os meios de deslocamento e até o perfil de personalidade. Uma pessoa que prefere ficar em casa lendo um livro tem um risco menor de se expor ao vírus do que quem sai com muita frequência e se relaciona com muitas pessoas."

De acordo com Gomes, os modelos que estimaram o limiar de imunidade ao coronavírus variando entre 50% e 70% consideram que o risco de infecção é o mesmo para todos os indivíduos.

"Temos visto que, no caso da Covid-19, quanto maior é o grau de heterogeneidade da população, mais baixo se torna o limiar da imunidade de grupo", disse Gomes.

Para os pesquisadores, se as medidas de distanciamento forem relaxadas antes de a imunidade coletiva ser alcançada, os casos podem voltar a subir..

Covid (divulgação)
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