Subnotificação de casos dificulta enfrentamento da Covid-19 na região

O número de pessoas infectadas com o novo coronavírus é bem maior do que os dados oficiais das prefeituras do Vale do Paraíba. O motivo é simples: testa-se pouco na região, apenas os casos mais graves que procuram o sistema de saúde.

Com isso, a subnotificação vira regra e impede que as Secretarias de Saúde tenham um panorama real sobre a quantidade de casos, o que prejudica o dimensionamento da rede de atendimento para acolher os pacientes graves.

Em São José dos Campos, por exemplo, o prefeito Felicio Ramuth (PSDB) contratou uma segunda leva de 450 testes para tentar aproximar-se de um número mais real de casos confirmados na cidade.

Na primeira pesquisa, os dados revelaram que mais de 3% da população da cidade poderia ter sido infectada pelo coronavírus, o que dá em torno de 25 mil pessoas.

A cidade tinha 421 casos positivos até 15 de maio. "Vamos fazer a pesquisa por amostragem para fazer o teste rápido e descobrir o percentual de pessoas contaminadas. Pela primeira pesquisa, daria cerca de 25 mil pessoas, a maioria sem sintomas, e vamos repetir os testes para estipular por amostragem o número de infectados na cidade", disse Felicio.

ESTUDO.

Para tentar obter um quadro mais real da doença na região, o professor Paulo Barja, da FEAU (Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo) e da FEA (Faculdade de Educação e Artes), ambas da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), acompanha diariamente a divulgação dos casos oficiais para estimar a taxa de subnotificação.

Para tanto, ele usa modelos matemáticos da Fiocruz e da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro e explica que os dados utilizados são os dos "casos concluídos" --óbitos e curados.

O resultado obtido por Barja é mais modesto do que o apontado pela pesquisa de São José, mas não deixa de revelar quão distante as cidades estão de resolver a subnotificação e quantificar os casos.

Nesta sexta-feira (15), ele estimou o fator de subnotificação de São José dos Campos em 5,54, o que daria à cidade um total entre 2.300 e 2.400 casos confirmados.

Para Jacareí, o professor apurou uma taxa de 9,87 de subnotificação, o que elevaria os casos da cidade para mais de 960, bem acima dos 98 registrados oficialmente.

No Litoral Norte, região com 432 casos, o índice é de 4,4 de subnotificação, fazendo os casos confirmados subirem para cerca de 1.900.

BRASIL.

O quadro ainda é bem pior para o país, que tem 218 mil casos confirmados e Covid-19 e 14.817 mortes.

Segundo Barja, o fator de subnotificação medido para o país é de 12, o que ele classifica como "gravíssimo".

"Estimo que estejamos ultrapassando a barreira dos 2 milhões de casos no Brasil. Subnotificação, como sabemos, há no mundo todo, mas é mais grave quando há menos testes disponíveis", afirmou Barja.

Para o professor, os casos não quantificados reforçam a necessidade de o Vale apostar numa estratégia regional de combate ao coronavírus, envolvendo as cidades.

"Dentro desse macrocontexto, creio que a RMVale tem a necessidade de mostrar sua vocação para Região Metropolitana unificando estratégias."

A regionalização seria a maneira mais eficaz de combater o pico da doença, que ainda não chegou à região e tampouco ao Brasil.

PLANEJAMENTO.

Conclusão semelhante chegaram pesquisadores brasileiros em estudo publicado no site Covid-19 Brasil. Eles estimam mais de 1,6 milhão de casos da doença causada pelo novo coronavírus no país, sendo 526 mil só no estado de São Paulo.

O número é referente a 4 de maio e é 14 vezes maior que o registro oficial. De acordo com dados do Ministério da Saúde, na ocasião o país registrava 108 mil casos confirmados da doença, sendo 32 mil só no estado paulista.

A contabilização desses casos ocultados das estatísticas pela subnotificação colocaria o Brasil como o novo epicentro da doença, ultrapassando os 1,2 milhão de casos registrados nos Estados Unidos.

"A motivação do estudo é contribuir para o planejamento da epidemia", disse Domingos Alves, integrante do grupo Covid-19 Brasil, formado por cientistas de mais de 10 universidades brasileiras monitorar a epidemia.

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