Crise e pandemia do coronavírus fecham 72 mil vagas no Vale

Pesquisa de professor da USP mostra que para cada emprego formal perdido dois informais ficaram sem trabalho no país

Xandu [email protected] | @jornalovale

A pandemia do coronavírus já pode ter tirado o trabalho de 72 mil pessoas no Vale do Paraíba neste ano.

O número leva em conta os 24 mil postos de trabalho formais (com carteira assinada) perdidos na região de janeiro a maio, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério da Economia, mais os trabalhadores informais.

Cálculos baseados na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), revelam que dois trabalhos informais podem ter sido perdidos para cada emprego formal fechado neste ano.

As projeções de impactos no mercado de trabalho são do professor sênior da USP (Universidade de São Paulo) Hélio Zylberstajn. Elas mostram que o fechamento de vagas formais tem provocado um efeito cascata, atingido em dobro os informais.

Nesse contexto, os 24 mil empregos formais perdidos no Vale impactariam outros 48 mil postos de trabalho informais, causando a perda da fonte de renda para 72 mil pessoas.

Para ter ideia do tamanho do abismo, entre 2014 e 2019, a região acumula a perda de 42,8 mil empregos.

Sem ter acesso à rede de proteção social do emprego com carteira assinada, o trabalhador informal está mais exposto aos efeitos das crises.

Geralmente atuam em funções que dependem da renda dos demais trabalhadores e ficam sem opção quando há uma queda da atividade econômica.

"O grupo informal foi o que mais sofreu logo no início da quarentena. Para eles, a ocupação se dissipou imediatamente, na medida em que a demanda por seus serviços desapareceu", diz Zylberstajn ao jornal Estado de São Paulo.

CRISE.

No período analisado, segundo o especialista, 3,98 milhões de trabalhadores informais perderam sua principal fonte de renda no país neste ano. No caso dos formais, 1,99 milhão ficaram desocupados.

Pela primeira vez, mais da metade da população brasileira em idade para trabalhar está sem ocupação, segundo o IBGE, refletindo duas crises econômicas.

A primeira, em curso desde 2019, reflete a recessão brasileira sob a política ultraliberal do governo Jair Bolsonaro. A segunda, mais recente, capta os efeitos da pandemia.

Diretor do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Clemente Ganz Lúcio disse que a crise vai deixar um contingente de endividados e ainda corroer a renda, sobretudo entre os informais, mesmo com medidas como o auxílio emergencial de R$ 600 para a baixa renda.

"Enquanto outros países já trabalham para pensar a saída da crise, o governo do Brasil fala em reformas", disse.

Outro dado preocupante é o que aponta levantamento feito por pesquisadores do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Segundo eles, em função de redução de salário por conta da pandemia, 3,8% das famílias acabaram atrasando o pagamento de contas. Já 9,1% ficaram inadimplentes por terem perdido o emprego. As dificuldades das famílias podem ter efeito redutor na recuperação econômica.

SETORES.

No Vale, dos 24 mil postos de trabalho formais perdidos entre janeiro e maio de 2020, metade fechou no setor de serviços, segundo dados do Caged.

O segmento cortou 12 mil postos, seguido de comércio (-7.861), indústria (-3.208), construção civil (-767) e da agropecuária (-136). Nenhum registrou alta no emprego.

52% das carreiras com diploma fecharam postos

A maioria das carreiras de ensino superior obteve balanço negativo entre contratações e demissões desde o início da pandemia da Covid-19, segundo levantamento do Quero Bolsa, plataforma de vagas e bolsas de estudo no ensino superior. O estudo usa dados do Caged e considera os meses de março, abril e maio.

Analisando as ocupações em que a contratação de profissionais com diploma de graduação é maior que as de sem diploma, 52,3% delas tiveram fechamento de postos de trabalho no período.

No geral, foram 292.694 contratações com carteira assinada de profissionais graduados e 377.726 demissões no período, com -85 mil postos.

Assinar OVALE é

construir um Vale melhor


OVALE nunca foi tão lido. São mais de 23 milhões de acessos por mês apenas nas plataformas digitais, além da publicação de quatro edições impressas por dia. O importante é que tudo isso vem sempre com o DNA editorial de quem é líder em todas as plataformas, praticando um jornalismo profissional, independente, crítico, plural, moderno e apartidário. Informação com credibilidade, imprescindível para a construção de uma sociedade mais livre e mais justa, em um tempo em que a democracia é posta em risco por uma avalanche de fake news. Aqui a melhor notícia é a verdade. E nós assinamos embaixo. Assine OVALE e ajude-nos a ampliar ainda mais a melhor cobertura jornalística da região.