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Brasil tem estremecimento na relação entre poderes e Forças Armadas; pesquisadora vê ameaça

Publicado em 17/07/2021 às 02:00Atualizado há 22/07/2021 às 12:06
Governo militar. Número de militares no governo bate recorde sob a gestão do presidente Jair Bolsonaro  (divulgação)

Governo militar. Número de militares no governo bate recorde sob a gestão do presidente Jair Bolsonaro (divulgação)

Botas no gabinete.

Esquentou o clima entre as Forças Armadas e o Senado Federal como não se via desde a ditadura militar, em 1964.

Depois de críticas do senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid, sobre a participação de militares nas suspeitas de irregularidades em compra de vacinas, o alto comando reagiu.

Em nota oficial, o Ministério da Defesa e o comando das Forças Armadas repudiaram as declarações de Aziz, que “desrespeitou” os militares e “generalizou esquemas de corrupção”. “As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”, disse trecho da nota.

Dias depois, em entrevista ao jornal O Globo, o comandante da Aeronáutica, o brigadeiro Carlos Almeida Baptista Junior, reforçou o tom de ameaça da nota oficial e disse que serviu de “alerta”.

ANÁLISE.

Para a cientista social Suzeley Kalil, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional, o episódio é quase um “teatro do absurdo”, revestido de ilegalidade e com evidente tentativa de ameaçar um poder legítimo da República.

“O pior é a própria nota, que é absurda. Um Ministério da Defesa e os três comandos assinando nota ameaçando outro poder da República é impensável em qualquer estado de direito, e nem precisa ser democrático”, disse ela.

“Os comandantes deveriam estar presos. Por muito menos, jornalista está preso e não pode nem dar entrevista.”

Autora de livros como “A militarização da burocracia”, Suzeley vê com bastante preocupação a presença de militares, incluindo da ativa, no governo Jair Bolsonaro (sem partido).

“Do ponto de vista político, ninguém pode gostar do que está acontecendo, se minimamente pensar no que é um estado de direito. Não significa que os militares não participem da formulação de políticas, mas o que não podem é participar como vem ocorrendo no Brasil, sem nenhum controle. Existem três poderes que têm que ser respeitados”.

'Poderes estão ameaçados e aceitando ser tutelados pelo poder das armas'

Na avaliação da professora e pesquisadora Suzeley Kalil, o Brasil vive o período mais conturbado com relação aos militares desde 1964. "De 2018 para cá, isso tem piorado bastante. E isso muito menos por responsabilidade das Forças Armadas do que dos demais poderes da República". Segundo ela, os poderes da República estão "ameaçados e aceitando ser tutelados pelo poder das armas"..

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