Pobreza da pandemia tira até o teto: ‘Sem renda, não tive opção’, diz morador de rua

Agência O Globo | @jornalovale

J.C., de 38 anos, estava, no último dia 12 de fevereiro, em seu terceiro dia dormindo na rua. Pintor e lanterneiro, perdeu o emprego porque a empresa em que trabalhava não sustentou o baque que a pandemia trouxe: perdeu muitos clientes. 

Ele morava no Méier, na Zona Norte do Rio, quando perdeu o emprego.

Buscou o auxílio emergencial, mas ficou sem acesso ao benefícios quando perdeu a carteira de identidade. Ele reclama da burocracia para conseguir tirar o documento e do reflexo mais duro: ficou sem qualquer renda. Não conseguiu mais pagar o aluguel e foi para a rua. 

Paradoxalmente, muita gente sem renda tem na rua mais oportunidades de comer do que em casa. 

— Não tive opção. Estou sem renda alguma. É um jeito de não passar fome - conta ele, que recebe comida de pessoas e instituições que ajudam pessoas em situação de rua. 

J.C. ainda mantém a esperança de refazer seus documentos e encontrar um emprego. Ele não quer que amigos e parentes saibam, por isso pede para não se identificar. Tenta se manter vestido como se estivesse indo trabalhar.

Gosta de camisas pólo, compatíveis com alguém que há pouco tempo ganhava até R$ 2,3 mil por mês, quando a comissão era boa.

As ruas do Rio e de várias cidades do país estão cheias de novos moradores de rua. Gente que perdeu emprego na pandemia e também não pode mais contar com o auxílio emergencial, cujo pagamento o governo encerrou em dezembro.

Enquanto Executivo e Legislativo não encontram uma saída orçamentária para a volta do benefício, muita gente não consegue pagar aluguel e fica sem teto. 

Feito entre 26 e 29 de outubro do ano passado no Rio, um censo indicava uma reflexo da pandemia nas ruas: 7.272 pessoas identificadas como moradores de rua. Dessas, 752 disseram terem ido para praças no Centro e nas zonas Sul, Norte e Oeste por causa da perda de renda provocada pela pandemia.

O número certamente aumentou muito, avaliam técnicos da Secretaria Municipal de Assistência Social, porque naquela ocasião ainda não havia o impacto social que agora abate os mais pobres: a suspensão do auxílio emergencial. 

A pesquisa de outubro indicou a presença de apenas 30 mulheres e de 112 crianças na rua. Segundo a pasta, a maioria tem casa em comunidades, vende balas nas ruas e no final de semana volta para suas casas. Também porque perderam meios de ganhar dinheiro para a passagem de ônibus.

Sol de Assis, uma entidade filantrópica católica que vive de doações, abriu há quinze dias uma espaço para oferecer almoço a quem vive na rua. Na linha de frente, a coordenadora Aurelina Cavalcanti, de 67 anos, vê o que a estatística ainda não consegue mensurar.

— Nos sinais de trânsito, diminuiu muito o número de doações. No começo da pandemia, servíamos o café da manhã. Vinham poucas pessoas, às vezes cinco. O número foi aumentando, e decidimos oferecer quentinhas. Mas os vizinhos reclamavam da sujeira na rua. Aí abri um espaço que, das 12h às 14h, oferece às vezes a única refeição dessas pessoas. Ontem, vieram 63. Muitos acabaram de chegar à rua - conta Aurelina, que vê a fome rondando a população em pobreza extrema.

O efeito colateral mais preocupante é que muitos estão chegando à rua por falta de opção, mas as "ofertas" vão muito além de comida.

Uma cachaça pode ser vendida a R$ 1. Uma pedra de crack pelo mesmo valor. A rua parece uma porta de saída, mas é, na verdade uma porta de entrada para vícios difíceis de contornar.

— Temos aqui também um lar em que abrigamos jovens em situação de rua que caíram nas drogas. E isso vem se agravando - diz Aurelina. 

Em ruas da Zona Norte do Rio percorridas pelo GLOBO, muitos não quiseram se identificar à reportagem. Boa parte deles têm casa, onde não há comida. Paradoxalmente, para quem não tem renda alguma, viver na rua pode ser uma forma de escapar da fome que ronda muitos lares brasileiros. 

Cálculo do economista Daniel Duque feito a pedido do GLOBO estima que 6,2 milhões de pessoas que já eram pobres antes da pandemia mergulharam agora, sem o auxílio emergencial, na pobreza extrema. Vivem em famílias com renda inferior a R$ 157 por pessoa.

Celso Rodrigues Nascimento, de 37 anos, trocou São Paulo pelo Rio há dois meses na esperança de achar um emprego. Veio de carona e a pé. Já foi pizzaiolo e motorista de van, mas, sem oportunidade, vive na rua.

Conseguiu receber o auxílio emergencial no ano passado e comprou uma bicicleta usada, que usa para catar entulhos para reciclagem. Mas viver do "garimpo" está ainda mais difícil, ele diz: 

— Todo morador de rua acaba se tornando garimpeiro. A concorrência só cresce.

De fato, a reclamação procede. Acostumados a viver de catar latas, caixas de papelão, eletrodomésticos quebrados e da busca de itens no lixo, muitos moradores em situação de rua reclamam que não estão conseguindo mais viver do "garimpo" porque a cada dia chega mais gente para viver do que a rua oferece e falta em casa.

— Eu catava lata, lavava carro, acabou tudo. Tenho casa em Manguinhos, mas não tenho dinheiro para pagar a passagem. Fico a semana inteira aqui, e vou para casa no final de semana — diz um morador da Praça Jardim do Méier, na Zona Norte do Rio. 

Sommelier, garçom, habilidoso no preparo de drinques, Iran Santos Araújo, de 38 anos, já teve renda de quase R$ 3 mil e tinha carteira assinada até o ano passado. Desempregado, recebeu o auxílio emergencial até dezembro.

Resolveu deixar São Paulo com o pouco dinheiro que restou na esperança de encontrar um emprego no Rio. Combinou de morar na casa de um amigo, que não cumpriu a promessa. Não teve escolha. No dia em que conversou com O GLOBO, estava há cinco dias dormindo na rua, uma experiência que nunca pensou viver.

— Tenho 22 anos de profissão. Nunca precisei de um currículo. Tenho que encontrar um emprego — diz, esforçando-se para manter essa esperança em seus olhos, mas, realista, mostrando-se preocupado como o fato de não ter residência fixa e não poder pagar a pensão dos quatro filhos, que moram com a mãe.

— Que ninguém passe o que tenho passado.

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