Brasil

'Narrativa liberal foi por água abaixo', aponta ex-diretor do Banco Mundial formado no ITA

Carlos Braga vê a Covid piorando a política econômica brasileira, que já não ia bem: "Nunca acreditei que o governo Bolsonaro tivesse DNA liberal"

Xandu Alves@xandualves10
15/08/2020 às 01:17.
Atualizado em 24/07/2021 às 15:33
3x4. O economista Carlos Braga (Divulgação)

3x4. O economista Carlos Braga (Divulgação)

Professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial, Carlos Braga diz que o coronavírus causa a pior crise econômica desde a recessão de 1930 e vê o governo Jair Bolsonaro sem realizações. "A montanha pariu um rato", diz ele sobre a reforma tributária, metáfora que serve para a política econômica. "Nunca acreditei que o governo Bolsonaro tivesse DNA liberal".

Confira os principais trechos:

Com quase seis meses de pandemia, como avalia a crise econômica?

É generalizada e temos uma recessão mundial, a mais dramática desde a grande depressão dos anos 1930. No caso do Brasil, os números variam.

A expectativa do mercado é de recessão de 5,8% em 2020, mais ou menos o que o governo menciona. Já o FMI (Fundo Monetário Internacional) fala em 9%. Pior do que a gente na América Latina só Argentina e México. A recessão é realidade para o mundo todo.

A revisão do FMI prevê que a economia mundial vai contrair na ordem de 4,9%.

Essa situação é associada ao vírus. A pandemia requer distanciamento social e temos diferentes graus de intensidade, de lockdown e até outras medidas. O setor de serviços é o que mais sofre na pandemia.

Países sofrerão da mesma maneira?

Um incêndio na floresta é a melhor metáfora para uma pandemia. Quanto mais ágil se age e isola o incêndio, tem chances melhores de controlar, como ocorreu com a Nova Zelândia, Coreia do Sul e Vietnã na pandemia, e mais tarde na Alemanha. Eles agiram rápido e não tiveram a história de que é 'gripezinha' e 'não precisa se preocupar muito'.

E por aqui?

O Brasil e os Estados Unidos são exemplo de como não fazer. São países que demoraram a agir e tiveram mensagens de que o problema ia desaparecer logo. Quando agiram, entraram em conflito com estados sobre as regras e restrições. Mensagens conflitantes não inspiram confiança. Tanto aqui como nos EUA sabemos que não vai controlar a pandemia. Essa é a realidade. O que teremos é a imunidade de rebanho, na medida em que mais pessoas são infectadas. Temos que rezar para que a imunidade chegue rápido, para uma vacina e para medicamentos eficazes, que certamente não é a cloroquina.

Governo Bolsonaro agiu certo na economia?

Está fazendo o mesmo do mundo todo: expansão fiscal e facilidade de crédito. Se na área de saúde pública o país falhou, na área econômica está fazendo o que precisa fazer. O problema é que teremos que pagar essa conta. Agora começa a discussão do teto de gastos e o que faremos em 2021. O déficit primário está por volta de 6,4% do PIB. Se levar em conta os juros, atingiu 11,4%. Isso é insustentável e a dívida pública vai explodir. Certamente, a dívida em 2019 que estava por volta de 67% do PIB, vai terminar esse ano, por causa da pandemia e expansão do déficit, vai acabar perto do teto de 100%. O mundo não vai acabar por causa disso, mas cria tensões no mercado. Tem que tomar medidas ficais em 2021, que será um ano difícil. O FMI estima um crescimento de 3,6% em 2021, por causa da grande queda deste ano. Tenho minhas dúvidas.

O que a recessão causará?

Já estamos vendo um aumento significativo da taxa de desemprego e quantidade crescente de trabalhadores 'desalentados', que não mais procuram emprego e estão à margem do mercado de trabalho. Essa pandemia tem características únicas. No mundo, é pela primeira vez uma recessão coordenada. Todo mundo está sendo afetado. Alguns países mais do que outros. Quem levou a sério a saúde pública já está se recuperando, como a China, que mesmo assim deve crescer entre 1% e 2%, uma queda significativa, mas não vai entrar em recessão. Nos EUA é recessão da ordem de 8%, no Reino Unidos mais do que 10%, na zona do euro 10% e no Japão, 5,8%. Notícia boa é que não há expectativa de crise financeira, de ter que salvar bancos. A probabilidade hoje é mais baixa. O que vamos observar é falências de empresas, as mais responsáveis pelos empregos, particularmente as pequenas e médias. Esse é um quadro negativo e coloca na ponta da discussão política a questão do teto de gastos, da credibilidade do governo.

Como vê a saída de membros da equipe do ministro Paulo Guedes? Acha que ele termina o ano no cargo?

É mais ou menos como prever a taxa de câmbio do real, quase impossível. Nunca acreditei que o governo Bolsonaro tivesse DNA liberal. Não é a trajetória dele. O Guedes tem, mas o que aconteceu até hoje em termos de medidas liberais?

A maioria das coisas foi herdada da administração [Michel] Temer. Em termos de privatização, não conseguiu absolutamente nada. Essa foi a razão da saída dos secretários. A reforma administrativa esbarra no corporativismo do setor público brasileiro, e a administração Bolsonaro tem suas limitações políticas. A entrada na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) vai levar anos.

O acordo do Mercosul com a União Europeia só será ratificado quando o governo Bolsonaro sair, por causa da questão ambiental. Acho que o Guedes vai continuar tentando batalhar. Bolsonaro tem consciência de que, se ele sair, vai ser golpe do ponto de vista da mensagem que tem agenda liberal. Aquela narrativa de que teríamos liberação comercial, privatização, desburocratização e reforma tributária está indo por água abaixo.

TJSP (Divulgação)
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Guedes, testagem e exportação (Cláudio Vieira/ PMSJC)
Guedes, testagem e exportação (Divulgação)
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