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Setembro 11, 2018 - 15:35

Crítica: 'Os tr3s porcos', por Simone Carleto

Peça integrou 33ª edição do Festivale

Peça integrou 33ª edição do Festivale

Foto: Paulo Amaral/FCCR

O outro lado da história ou "Das ocupações"


Ao contrário do que se possa imaginar diante do título, que remete aos “famigerados" Três Porquinhos,Os Tr3s Porcos,espetáculo de Teatro de Rua d'A Próxima Companhia, foi concebido para o público de todas as idades. O trabalho conta com direção e preparação corporal de Rafaela Carneiro, dramaturgia de Renato Mendes, direção musical de Luciano Carvalho, cenografia de Caio Marinho, figurinos de Caio Franzolin e Magê Blanques. Os palhaços Micolino, Oto e Tito, construídos pelos atores Caio Franzolin Caio Marinho e Gabriel Küster, representam os Três Porcos da fábula popular tradicional infantil. Desta vez, porém,a moral da história (único elemento comum a todas as inúmeras versões da fábula), é totalmente desconstruída na montagem da trupe. Assim, o Porco mais esforçado e trabalhador conquistaria a melhor casa, enquanto aqueles mais "dados aos prazeres da vida" e portanto identificados como preguiçosos, estariam fadados a serem comidos pelo Lobo. Aqui, Micotó e Fetito trabalham sem parar no "mutirão" para construir as casas, enquanto Otoicinho (que tem a casa mais equipada) teoriza com o público a importância do trabalho coletivo.

Comidos e mal-pagos (os trocadilhos constituem ponto forte da abordagem cômica da montagem) de qualquer modo, na versão do grupo, os três irmãos Porcos assumem o ponto de vista da população trabalhadora que luta por moradia. Sobretudo os movimentos organizados socialmente nesse sentido têm sido atacados nos últimos anos. Tragédias nas quais centenas de famílias sem-teto são dizimadas em diversas periferias brasileiras, por conta de incêndios, são traduzidas na mídia em versões higienistas e que responsabilizam a população e não o estado.

Assim, as dramaturgias de texto, de cena e de ator proporcionam uma complexa e coerente dramaturgia da encenação que reconstróem a fábula, na perspectiva apontada. Para tanto, as classes sociais são apresentadas,implicitamente, por meio dos elementos dispostos para elaboração cenográfica. Uma traquitana - aparato que se caracteriza por transformar-se em inúmeros expedientes que atribuem a ela funcionalidade na encenação - ambienta as três casas dos três porcos. Simbolizadas por folhas de porta, da mais simples à mais estruturada, as casas são construídas em níveis e materiais diferentes: de mais próxima do piso à mais “elevada”; da “maçaneta” de palha até a “barroca”; do suporte de madeira até o de metal; e assim por diante. A partir do endereço, as condições materiais da existência são evidenciadas e na peça é convencionado pela caixa de correspondência, comum aos Três Porcos.

A figura do Lobo permanece oculta, já que representa o sistema capitalista vigente, ou seja, trata-se de alegoria simbolizando o sistema dotado de mecanismos múltiplos de permanência, que precisam ser desnaturalizados. Na história, o Lobo se comunica com os Porcos por cartas, que chegam a uma caixa postal colocada no centro da cena. Desse modo, o poder do Capital de dissolução dos seres é demonstrado na “ascensão" de Otoicinho, que se distancia cada vez mais de seus parceiros, chegando a “botar fogo e plantar bomba" nas casas de Fetito e Micotó e expulsá-los de sua casa. Ao entrarem pela janela, driblando um "eficaz sistema de segurança" (uma "cerca elétrica"instalada por Otoicinho), os dois sem-teto descobrem a identificação deste com o Lobo-Capital. Explicando a lógica-engrenagem dos acontecimentos, os três voltam à união, desta vez em um único barraco. Em suas paredes estão escritos nomes de significativas comunidades, que resistem pelo direito às mínimas condições de vida digna para suas famílias.

A Próxima Companhia, que conta com diversos trabalhos cênicos em sua trajetória, atuou do início ao fim com total consideração ao público presente,interagindo a partir das reações dos espectadores com prontidão. Por todas as características elencadas, essa obra artística materializa a superação das contradições internas de organizações sociais da esquerda brasileira, justamente pela compreensão que expressam com relação à existência de um sistema complexo, que será vencido apenas com pressão e organização popular. Por isso, a canção final reforça: “O Lobo cai, a gente fica”.

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Simone Carleto

Crítica do 33º Festivale. Artista pedagoga (atuação e direção), mestre e doutora em Artes Cênicas pelo Instituto de Artes da Unesp. Atriz, assessora de diversos grupos teatrais e autora de ensaios e artigos nas áreas de pedagogia, crítica e interpretação teatral.

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