divulgação
Sou peregrino, ando pela rodovia Presidente Dutra, a pé, rumo a Aparecida.
Caminho... penso!... penso... caminho!
Faço uma troca de dores, transponho uma que tive algum tempo atrás, por essa de hoje, pela caminhada.
Uma caminhada calada, onde o alimento para o corpo é o mínimo e o alimento para minha alma é grande.
O chapéu ameniza o sol, o cajado é a segurança para eu não vacilar, nos lábios mantenho uma oração e na mochila levo muita coisa não!
Passo a passo, dia e noite, noite e dia, sozinho, sigo com a determinação de quem sabe o valor da dor.
Dor.
A dor da bolha costurada, da barriga roncando, da cãibra na perna, da sede; a dor de romper o casulo da perfeição a que me afeiçoei, sempre envolvido ao mundo.
Sou peregrino! O sol... o sol... faço agora uma pausa, reflito minha dor. Não esta de hoje, mas a outra, a que veio sem me avisar, aquela que chegou sem marcar hora e não foi bem vinda. A que me pegou assim de supetão, me deixou no chão. No chão?!... não. Abriu o chão e me deixou em um buraco sem fundo. Momentos tenebrosos.
Escolhas.
A lua... a lua... nestes passos de penitente eu supero o que passou, pois se é para doer que eu escolha o momento e o tipo de dor.
Escolhi este... andar pela via Dutra, provar para mim que eu sou capaz, entender um pouco mais o sentido da vida e deixar de lado o sentido do homem, porque, na verdade, o homem não é a vida, se assim fosse não morreria, jamais!
Sofro hoje por querer, troco dor por dor, justifico o eterno mandamento... amar!
Se amar é se doar, vou me doar por inteiro. No mais íntimo do meu ser, no eu mais profundo, procuro-me dentro deste buraco, sem a tecnologia de salvamento produzida pelo homem, apenas procurando o que perdi ao longo dos anos... a presença de Deus. Mesmo que seja apenas uma nesga da sombra Divina.
Sim, a sombra! Se tiver sombra haverá de ter um pouco de luz e será através dessa luz que eu verei a saída. Só assim conseguirei sair deste buraco, renovarei minhas forças, mesmo que, para isso, tenha de esgotá-las em todos os sentidos.
O sol... o sol!... A lua... a lua!... estou a caminho, não quero parar e nem me dou ao direito de sentar na sarjeta da vida. Costuro minhas bolhas emocionais com o fio branco de meus pensamentos, como os de agora, secando, cicatrizando, para que se tornem calos de sobrevivência. O rumo eu sei, a dor é minha, a decisão é Divina!
Rita Elisa Seda
é escritora,
fotógrafa e pesquisadora
CRONICA CRÔNICA