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NOSSA REGIÃO
October 30, 2011 - 03:00

'O exercício do poder pode ser maléfico na construção de uma sociedade'

Renato Amaro Zângaro, Prof. Dr. Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Unicastelo

1. Como o senhor avalia a situação atual da FVE/Univap, com a aprovação do novo estatuto da Fundação Valeparaibana de Ensino?
O novo estatuto resgata o que deveria ter sido estabelecido na aprovação da Universidade em 1992, pois, como estamos tratando neste caso de uma Universidade Comunitária (temos no país 3 tipos de instituições universitárias: as públicas, as comunitárias e as particulares), a maior participação da comunidade nos seus rumos, bem como a alternância dos seus dirigentes máximos é de fundamental importância para a vitalidade de uma instituição que tem como missão maior a formação de cidadãos e cidadãs “éticos e responsáveis”.
 
2. O senhor concorda ou discorda da análise de que a aprovação do estatuto representa o fim da era Gargione na instituição?
É importante frisar que desde sua fundação na década de 50, a FVE gozou de grande prestígio acadêmico, inclusive quando Gargione assumiu no final da década de 70. A administração do Gargione teve maior repercussão nas décadas de 80 e 90, quando, qualquer administrador escolar conseguia excelentes resultados financeiros, mesmo à custa da perda da qualidade acadêmica como pode ser observado no presente caso. O ocaso da referida administração iniciou-se de fato em 2002, quando inúmeros adventos relacionados a educação nacional exigiam uma gestão mais dinâmica por parte das instituições de ensino do país, fato esse impossível de ser alcançado pela Univap haja vista a centralização praticada pelo seu administrador. A aprovação do novo estatuto induz a um corte abrupto na condução da presente política institucional, resgatando a história da instituição e dando início a um novo ciclo.
 
3. A aprovação do estatuto sepulta os eventuais erros da gestão Gargione?
É importante enfatizar que o Gargione nunca exerceu de fato o papel de Reitor, sua visão sempre foi a de um administrador e por isso o mal causado na qualidade de ensino da instituição em todos esses anos é irreparável. Alguns exemplos disso são: coordenadores obrigados a fazer malabarismos pela falta de contratação de professores em pleno ano letivo, corte de aulas pós 22 horas para economizar adicional noturno de professores, ingerência nas atribuições de aulas de todos os professores atropelando coordenadores e diretores, atribuição de disciplinas a professores sem formação específica na área, etc. Todos esses desmandos tiveram forte impacto na qualidade de ensino com conseqüência no desempenho institucional, fazendo com que a Univap tivesse uma redução de mais de 6000 alunos na última década. 
 
4. Que herança Baptista Gargione deixa na instituição?
Gargione foi nomeado como interventor da FVE em fins dos anos 70 pelo prefeito de São José dos Campos da época, Joaquim Bevilacqua. Fez da intervenção sua vida profissional por 30 anos e somente outra intervenção foi capaz de tirá-lo do poder, desta vez o ministério público, lento, porém eficaz.
No quesito material deixou prédios como herança, porém visitem uma instituição de ensino em período de férias e terão a exata dimensão do valor destes prédios. No quesito exemplo de vida, o legado do Gargione é grandioso, pois nos brindou com inúmeros modelos de como o exercício do poder institucional pode ser maléfico na construção de uma sociedade.
 
 
5. Na sua opinião, qual o futuro da Univap e como a instituição vai caminhar para ele?
Da mesma forma com que o Brasil teve que reconstruir e consolidar suas instituições após 2 décadas de totalitarismo passando por inúmeras crises políticas, sociais e financeiras, a FVE-UNIVAP passará por graves instabilidades até reencontrar seu novo rumo, o que só acontecerá quando todos os atores “institucionais e comunitários” ocuparem seu espaço e exercerem seus direitos e deveres “exorcizando o medo da espreita do cão”.
A FVE-UNIVAP cuja fundação remonta aos idos de 1954 é a mais tradicional instituição de ensino de São José dos Campos e seguramente com o apoio de toda a sociedade vai resgatar seu objetivo maior que é formação sem tutela de cidadãos e cidadãs, os quais possam livremente definir seus próprios rumos e os deste país. 
 


Renato Amaro Zângaro, Prof. Dr.
É atualmente Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Unicastelo.
Formado em Engenharia Elétrica -FVE-UNIVAP, São José dos Campos, S.P.
Mestrado e Doutorado pela Université des Sciences et Techniques du Languedoc, Montpellier, França.
Pós-Doutorado, pelo Massachusetts Institute of Technology, MIT, Cambridge-USA.
Atuou entre os anos de 1991 e 2008 na Univap, tendo ocupado no período as seguintes funções: professor, pesquisador, coordenador de curso, Diretor da Faculdade de Ciências da Saúde, Pró-Reitor de Graduação e Pró-Reitor de Cooperação Internacional. Ocupava esta última função quando pediu demissão em 2008, por discordar de ações do Gargione.
 

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