Thiago Leon
Um dos acusados fala pela primeira vez e acusa denunciante de ter fraudado prontuários médicos; denúncia foi feita em 1986 e julgamento está marcado para outubro
Luara Leimig
Taubaté
Vinte e cinco anos depois da denúncia e há menos de um mês do julgamento, a defesa dos médicos de Taubaté acusados de integrar um esquema de tráfico de órgãos na década de 80, diz que está preparada para uma reviravolta no caso e um dos médicos acusados fala pela primeira vez após o agendamento do júri.
De acordo com a denúncia da época o caso, que ficou conhecido como caso Kalume, devido ao médico Roosevelt de Sá Kalume que denunciou o esquema em 1986, quatro médicos retiravam os órgãos de pacientes ainda vivos e depois provocavam a morte deles. Os órgãos seriam então vendidos em um suposto esquema de tráfico órgãos.
O inquérito policial durou 11 anos e o processo que denunciou os médicos por quatro homicídios começou em 1997, mas só agora será julgado, no júri popular marcado para o próximo dia 17.
Esta semana o médico Rui Noronha Sacramento, hoje com 61 anos, concedeu uma entrevista ao O VALE e junto com os advogados de defesa apontou uma série de fatos que considera irregularidades no processo.
Segundo Sacramento, a denúncia se tornou um escândalo por causa de uma fraude em prontuários atribuída por ele ao médico Kalume, seguida de grande publicidade do caso.
“Os prontuários médicos encaminhados para a perícia foram forjados. Temos provas que antes de fazer a denúncia Kalume pegou os prontuários retirou exames, tirou cópias e encaminhou tudo para a denúncia, mas antes de devolver para o arquivo as páginas foram numeradas, o que comprova a alteração, já que nas denúncias as folhas não estão numeradas”, disse o médico.
Outra irregularidade no processo de acordo com os advogados de Sacramento, Romeu Goffi e João Romeu Carvalho Goffi, diz respeito a uma das quatro vítimas do processo.
“Uma das vítimas foi alvo de um latrocínio em Campos do Jordão e depois disso os quatro autores do crime foram localizados e condenados há 17 anos de prisão pelo crime. Como os médicos respondem pelo mesma morte, isto não existe na legislação”, disse Goffi.
O Ministério Público rebate o fato, e diz que laudos comprovam que o homem chegou vivo e teve os órgãos retirados sem ter a morte encefálica.
Morte atestada. Ainda de acordo com Sacramento, antes de fazer a retirada dos rins os pacientes passavam por pelo cinco equipes diferentes de médicos, incluindo intensivista da UTI (Unidade de Terapia Intensiva), nefrologista, anestesistas e neurologistas, que constatavam a morte encefálica tanto por exames clínicos quanto com auxílio de exames, e só então a equipe que iria fazer a retirada dos órgãos, incluindo ele, era acionada.
“Todas estas irregularidades constam nos autos e foram praticamente ignoradas. Hoje meu maior desgosto é ver que este caso inverossímil, com tantas afirmações absurdas chegou ao júri, porém estamos confiantes e será a chance de provar a inocência”, afirmou o médico.
Atraso. Para o médico, a falsa denúncia provocou prejuízos não só para os médicos denunciados, mas principalmente para a medicina em Taubaté e no Brasil. “Milhares de pessoas perderam a vida por causa de uma denúncia absurda que tomou proporções gigantescas e que promoveu um atraso e um prejuízo incalculável para a captação de órgãos no país”, afirmou.
Réus. Além de Sacramento, são réus no mesmo processo Pedro Henrique Masjuan, que também é defendido por Romeu Goffi e sustenta a mesma defesa que Sacramento e o médico Mariano Fiore Junior. “A defesa de Mariano está confiante na absolvição e temos certeza que a inocência dele será provada no júri”, disse o advogado Leonardo Máximo.
O quarto réu, Antônio Aurélio de Carvalho Monteiro, faleceu este ano.
SAIBA MAIS
O caso
O caso de tráfico de órgãos envolvendo quatro médicos de Taubaté foi denunciado pelo médico Roosevelt de Sá Kalume e teria ocorrido em 1986 no antigo Hospital Santa Isabel de Clinicas, onde hoje funciona o Hospital Regional
Esquema
De acordo com a denúncia, os médicos retiravam órgãos de pacientes que ainda não apresentavam morte cerebral e depois provocavam a morte de pacientes. Os órgãos seriam traficados para transplantes, dentro de um esquema de tráfico de órgãos. Durante o inquérito policial que se arrastou por 11 anos, exames teriam comprovado que pelo menos 4 pacientes tiveram os órgãos retirados ainda vivos
CPI
Em 2003 o caso foi alvo de investigação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). Na época, os deputados convocaram todos os envolvidos a prestar depoimentos, entre eles duas enfermeiras que teriam presenciado a retirada ilegal dos órgãos. Em um dos depoimentos, a enfermeira Rita Maria Pereira revelou ter presenciado os médicos retirando os rins de um paciente que ainda se debatia na maca e gemia o tempo todo de dor e que ao final estava quase consciente tentando sentar-se na maca
Precatórias
Seis testemunhas arroladas no processo que residem fora da comarca de Taubaté já foram ouvidas por carta precatória este mês e os interrogatórios serão anexados ao processo. Entre as testemunhas estão o médico legista Jonas Brito que na época das mortes periciou os laudos; o delegado Roberto Martins de Barros que presidiu o inquérito policial e o médico
Outro lado
Denuciante diz estar tranquilo
Taubaté
O médico Roosevelt Kalume, responsável pelas denúncias, disse estar tranquilo quanto às acusações disparadas pelo réu e preparado para o júri que aguarda há 25 anos. “A história é conhecida de todos, as provas e documentos foram todos periciados e agora só cabe à Justiça se manifestar”, afirmou.
MP. Segundo o promotor Marcelo Negrini, responsável pela denúncia do processo na época, a tentativa de causar comoção pública na véspera do julgamento não é estranha para o Ministério Público.
“O processo corre desde 1997, desde então a defesa recorreu a todas as instâncias possíveis, o processo passou diversas vezes pelo tribunal e a sentença de pronúncia sempre foi mantida”, disse.
O delegado Roberto Martins de Barros, que comandou o inquérito policial na época, não comentou as acusações.
Júri.Por determinação da procuradoria, o promotor que fará o júri não será da região