"Dizem até hoje que não sou capaz de tomar decisões. Para se afirmar, a mulher tem que fazer bem mais"
ANGELA GUADAGNIN (PT)
VEREADORA E EX-PREFEITA
Como a senhora vê a eleição da Dilma Rousseff (PT), a primeira presidente mulher do país?
O machismo vem se arrastando pelos tempos como uma forma vergonhosa de dominação, autoritarismo. O século 20 representou um momento de profundas mudanças neste panorama, pois a mulher passou a conquistar, de forma mais organizada, seus espaços na sociedade. Nesta primeira década do século 21, sobretudo nas culturas ocidentais, temos visto uma projeção cada vez maior da mulher na política, conquistando postos importantes pelo mundo. A eleição de Dilma Rousseff, sob esse ponto de vista, nos traz o tom emblemático e positivo de avanço, modernidade, conquista de direitos.
A Dilma poderá servir como um estímulo para outras mulheres tentarem carreira na política?
Creio que ela pode ter bastante influência sobre esse ponto. Assim como o próprio fato de a Marina Silva ter ficado em terceiro lugar [na eleição presidencial], também foi bastante representativo. Se as mulheres podem ser executivas de sucesso, artistas talentosas, trabalhadoras habilidosas ou intelectuais brilhantes, por que não serem governantes ou legisladoras igualmente competentes? Esse pensamento está se consolidando cada vez mais junto ao eleitor. Mas, é óbvio que ainda há um grande caminho a ser percorrido, a ser conquistado paulatinamente. Se assim não fosse, o percentual de mulheres eleitas não seria tão menor do que o dos homens.
A maioria de homens em cargos públicos se deve a uma tradição patriarcal na nossa política?
Sim, nossa história política, de maneira geral, está ligada ao coronelismo e a uma exclusão da mulher frente ao voto. Mas, hoje, a mulher tem estado presente nas filiações partidárias, ocupando cargos públicos e atuando para ampliar seu espaço de maneira bastante competente. O processo de conquista foi deflagrado. Agora é continuar a caminhada para diminuir a desigualdade.
O que é uma mulher no poder? Muda o jeito de governar?
A mulher tem um olhar mais humano e prático sobre as questões que a cercam, o que pode fazer uma grande diferença na hora de exercer um mandato. Elas representam um avanço imenso tanto para a democracia, quanto para a diminuição das desigualdades sociais. Agora, se utilizarmos o estudo sobre as quatro imagens que são enxergadas em líderes ou políticos pelos cidadãos, categorizadas pelo sociólogo Roger Gerárd Schwartzenberg, ao trabalharmos uma candidatura feminina temos as mesmas características enxergadas em homens, como 'mãe', 'líder charme', 'mulher simples' e 'heroína'. Do ponto de vista dos anseios do cidadão, são essas personalidades que espera que cuidem da vida pública.
GIL CASTILLO
Consultora Política
'A mulher tem um olhar mais humano'