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Autor de panfleto contra vereadores da Farra, publicitário é conduzido à delegacia em Taubaté

André Guisard disse ter sido abordado em casa por quatro servidores da prefeitura, armados e em viaturas descaracterizadas, e levado para prestar depoimento contra sua vontade; cinco vereadores citados no caso aguardavam na delegacia

O publicitário André Guisard, autor de um panfleto que reproduz informações sobre os 14 parlamentares envolvidos na ‘Farra das Viagens’, foi conduzido por servidores da prefeitura ao 2º Distrito Policial, na Estiva, nessa sexta-feira.

Segundo o publicitário, os quatro funcionários estavam armados e o abordaram pela manhã em sua residência, em dois veículos sem identificação. Um desses homens era Jarbas Nogueira, gestor da área de Segurança e Vigilância. “Estava ele [Jarbas], mais três pessoas à paisana, ostensivamente portando revólveres na cintura”, relatou Guisard à reportagem.

Na abordagem, Jarbas teria dito a Guisard que o panfleto estava sendo distribuído por um homem que é portador de necessidades especiais ao lado da Rodoviária Velha – ele teria recebido R$ 2 para isso –, e que o publicitário teria que acompanhá-lo até a delegacia.

“O Jarbas perguntou: André, foi você que fez esse folheto. Eu disse que sim, e ele disse que veio uma denúncia de que estavam entregando na Rodoviária. Ele disse: tem um menino especial que estava entregando”.

Guisard disse à reportagem que, inicialmente, negou entrar com Jarbas no carro descaracterizado, o que só teria acontecido posteriormente após insistência do gestor da área de Segurança e Vigilância. “Vim contra a minha vontade para a delegacia”, disse o publicitário.

VEREADORES.

Guisard disse à reportagem que a denúncia teria partido do vereador Nunes Coelho (PRB) e que, ao chegar à delegacia, encontrou outros cinco parlamentares citados na ‘Farra das Viagens’: Diego Fonseca (PSDB), Douglas Carbonne (PCdoB), Dentinho (PV), Jessé Silva (SD) e Bobi (PV).

“Cheguei aqui e apareceu uma meia dúzia de vereadores, tinha um circo montado aqui, e fizeram um boletim de ocorrências que até agora eu não sei o motivo. Eu fiz um folheto, não tem nada de errado, só informações verdadeiras. Para mim, é uma armação política”, afirmou o publicitário à reportagem, após ser ouvido na delegacia.

No termo de declarações, consta que Guisard reforçou à Polícia Civil: “fui trazido aqui contra a minha vontade”.

O publicitário negou ter relação com o rapaz que tem necessidades especiais e que estava entregando os jornais. “A escrivã perguntou minha versão, eu disse que estava surpreso, que não tenho nada a ver com o menino que estava entregando”, disse. “Eles [vereadores] estão querendo fazer uma ilação, me ligar ao menino especial que estava entregando. Não tenho nada a ver com a entrega do folheto”, completou.

BANCA.

Guisard disse que havia deixado os panfletos em uma banca de conserto de produtos eletrônicos ao lado da Rodoviária Velha. Ouvido pela reportagem, o dono do estabelecimento, Sérgio da Silva Braga, confirmou essa versão.

Braga afirmou que havia dado R$ 2 para o rapaz portador de necessidades especiais almoçar no restaurante Bom Prato, que fica em frente à banca, e que o homem teria pegado os panfletos no estabelecimento e distribuído por iniciativa própria. “Estão falando que agimos de má fé e pagamos um excepcional para trabalhar”, reclamou Braga.

O dono da banca também reclamou da abordagem feita pelos servidores da prefeitura, comandados por Jarbas. “Perguntaram quem estava pagando para fazer os panfletos. Daí deram geral na banca, fizeram pressão, jogaram tudo no chão, falaram que iriam me prender”, disse. “Pensei que estávamos numa ditadura de novo. Divulgar uma matéria é crime? Não existe liberdade de expressão”, acrescentou.

Prefeitura não comenta detalhes da ação, mas diz que foi registrada denúncia de ‘abuso de incapaz’

Jarbas Nogueira, gestor da área de Segurança e Vigilância, foi abordado pela equipe da Gazeta de Taubaté na delegacia, mas não quis comentar o caso.

A reportagem questionou a prefeitura sobre a conduta dos servidores na ação – o uso de homens armados, em carros descaracterizados, para conduzir moradores à delegacia – e o que teria motivado o caso.

Em nota, a administração municipal alegou ter registro boletim de ocorrência de um possível abuso de incapaz – pelo pagamento ao portador de necessidades especiais para entregar o folheto.

“A Secretaria de Segurança Pública recebeu na manhã desta sexta-feira, dia 8 de fevereiro, uma denúncia de panfletagem irregular em uma região próximo à travessia da linha férrea. A prática dessa atividade [panfletagem] é vedada pela administração municipal”, diz trecho da nota.

“Ao chegar ao local, a equipe da secretaria se deparou com uma pessoa portadora de deficiência mental com o material. Esta pessoa indicou um terceiro como sendo quem pediu para entregar os panfletos. Este outro homem informou que teria recebido o material do publicitário”, continua o comunicado, fazendo referência primeiro a Braga e depois a Guisard.

A prefeitura finaliza a nota alegando que, na abordagem feita pela equipe, o publicitário “foi convidado a comparecer” à delegacia.

O comunicado não respondeu os questionamentos sobre o uso de armas e de viaturas não identificadas pelos servidores.

POLÍCIA.

A delegada do 2º DP, Fernanda Silva Brandão, não quis comentar o caso. Informou que apenas o delegado seccional, José Antonio de Paiva Gonçalves, poderia se pronunciar a respeito.

À reportagem, o delegado seccional não soube informar qual a natureza do boletim de ocorrência registrado. Disse somente que “foi feito um boletim de ocorrência não criminal” e que “aparentemente” não houve nenhuma irregularidade.

Panfleto foi encomendado por ‘simpatizante’ de Boanerge, diz Guisard

Questionado pela reportagem, André Guisard afirmou ter elaborado os panfletos a pedido de um amigo, que seria amigo em comum e “simpatizante” do presidente da Câmara, Boanerge dos Santos (PTB).

Além de criticarem os vereadores envolvidos na ‘Farra das Viagens’, os panfletos enaltecem ações adotadas por Boanerge para reduzir gastos no Legislativo, como o corte de 60% no quadro de motoristas e na frota de veículos da Casa.

O publicitário não informou quanto recebeu pela produção dos panfletos. Até agora, foram feitas duas edições, cada uma com 1.000 cópias.

BOANERGE.

O presidente da Câmara negou ter relações com o panfleto. Boanerge também esteve na delegacia posteriormente, para conversar com os vereadores que lá estavam. Disse que foi esclarecer para os colegas que o pedido para produção do material não partiu dele. “Não tenho nenhuma gestão sobre isso”.

Vereadores citados na ‘Farra’ e que compareceram à delegacia não comentam o caso

A reportagem tentou contato com os cinco vereadores que estavam na delegacia quando André Guisard chegou ao local, mas Diego Fonseca, Douglas Carbonne, Dentinho, Jessé Silva e Bobi não responderam.

Esses cinco vereadores já haviam deixado a delegacia quando a equipe da Gazeta de Taubaté chegou ao local.

Já a parlamentar Gorete Toledo (DEM) chegou à delegacia enquanto a reportagem estava no local. Ela estava usando um veículo oficial da Câmara e não quis dar entrevista. A Polícia Civil não informou se os vereadores registraram algum boletim de ocorrência contra o publicitário.

Pai de publicitário, que foi vereador, dá nome à plenário da Câmara

André Guisard é filho do ex-vereador Jaurés Guisard, falecido na década de 1970 e que dá nome ao plenário da Câmara de Taubaté – oficialmente chamado de Plenário Jaurés Guisard.

“Acho uma desonra para o nome do meu pai ter uns vereadores tão medíocres quanto essa legislatura aí”, desabafou o publicitário à reportagem.