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Política
Dezembro 14, 2018 - 21:18

Linha dura, Boanerge quer cortar gastos e frota e disciplinar Câmara de Taubaté

Boanerge

Boanerge

Foto: Caíque Toledo / OVALE

Em entrevista ao jornal, vereador que presidirá o Legislativo de Taubaté no biênio 2019-2020, afirmou que irá fazer uma gestão transparente; ele é um dos seis parlamentares que não estão envolvidos na 'Farra das Viagens'

Julio [email protected]

Reduzir gastos na Câmara e fazer uma gestão transparente. Essas são algumas das promessas do vereador Boanerge dos Santos (PTB), que presidirá o Legislativo de Taubaté no biênio 2019-2020.

Em seu primeiro mandato, o petebista, que é um dos seis vereadores que não estão envolvidos na 'Farra das Viagens', deseja reduzir a frota de veículos da Casa.

Policial militar, o parlamentar ainda planeja aumentar a "disciplina" na Câmara. 

Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida ao jornal. A íntegra, em nosso site.

Confira abaixo a entrevista concedida por ele ao jornal.

OVALE: O senhor anteriormente fazia parte do grupo que elegeu o Diego Fonseca em 2017. Por que decidiu sair desse grupo e ser candidato à presidência?

Boanerge: Nós participamos da eleição do Diego porque somos pró-governo, e ele foi o indicado. De lá para cá, existia um acordo para que o Nunes [Coelho] saísse candidato. Porém, fizemos uma reunião, em que foi definido que o candidato sairia daqueles 11, quem a maioria apontasse. Mas o Nunes se antecipou, desconsiderou essa reunião e se declarou [candidato a presidente]. Quando o Nunes fez isso, o Guará [Filho] se sentiu na condição de fazer o mesmo, desconsiderar a reunião, e disse que era candidato. O Guará deu uma repensada, e saiu [da disputa]. A gente via que o Nunes não ia ter quórum para ser eleito, as razões não vou citar. Por eliminação — a Graça não quer mais saber de presidência, está com os problemas dela; a Vivi [da Rádio] é um pouco afoita; o Jessé [Silva] está enfrentando os problemas dele; — e eu estou ali quieto. Assim como não tinha nenhuma pretensão de sair vereador, não tinha a intenção para a [presidência da] Câmara. Aí me apresentei, o grupo aceitou isso com naturalidade. Fiz uma primeira reunião onde tinham sete da base, todos me declararam voto. Ocorre que, a partir dessa reunião, passados uns dias, dois se mostraram indiferentes. Foi quando a gente chegou à conclusão que não poderia contar com esse dois, e nasceu uma nova candidatura, do Bobi. E aí o pessoal começou a divergir da nossa. Então eu disse: já que vocês estão procurando outras lideranças, não vou contar com vocês na mesa. Quando tomei esse posicionamento, a oposição acenou para mim. Aí as coisas foram acontecendo. Não posso impedir que a oposição vote em mim, como não podia exigir que a situação votasse em mim.

Aí você pode até me perguntar: mas a mesa [diretora] sua tem mais oposicionistas do que pessoal da situação? Tem, porque eu não consegui compor com o pessoal da situação. Oferecido foi. Como eu pretendo fazer uma coisa com isenção, presidir para 19 e não para 11, queria mostrar a minha cara. Não estou aqui para perseguir A ou B. Temos que respeitar a bandeira de cada um.

OVALE: Como deve ser a presidência do senhor?

Boanerge: A primeira ideia é fazer uma inclusão com os vereadores, acho que estamos meio dispersos, cada um puxa a corda para um lado. Não quero me fechar no meu casulo e fazer reunião apenas com o pessoal da base. Pretendo inserir todos os 19 vereadores, salvo aqueles que não quiserem participar. Com muita transparência, muita isenção. Claro que vou ter problema, porque você gerenciar 19 cabeças, não é todo mundo que pensa igual. Mas vou procurar presidir para todos. Brigando a gente não ajuda em nada a população, não ajuda as instituições. Pretendo, por exemplo, aproximar a imprensa [da Câmara]. Eu sei que tivemos vários problemas com a imprensa, mas não acho que você se blindar é o melhor caminho. Acho que tem que ser transparência. Por exemplo, me aproximar mais do Ministério Público, das entidades, me aproximar mais da Polícia Militar. É minha bandeira, minha plataforma.

OVALE: O senhor acha que é possível reduzir gastos?

Boanerge: Eu acho que é possível. Meu mandato começa no dia 1º [de janeiro], aí que vou sentar e ver os números. Não tenho acesso [às finanças da Casa ainda]. Cada um conduz com o jeito que acha reduzir, com o regimento. Acho que não pode ‘para os amigos tudo, e para os inimigos nada’. Não vejo vereador como meu adversário, nem político.

OVALE: Essa era uma das principais críticas em relação ao comando atual, de que privilegiava os vereadores da base. O senhor pretende fazer diferente?

Boanerge: Não fazendo nenhuma crítica à atual gestão, tem muitas coisas que eu não concordava, mas eu nunca disse isso. Achei que muitas pessoas foram prejudicadas. Acho que posso melhorar esse relacionamento. Quero melhorar a imagem da Câmara. Por exemplo, eu sou muito pontual com horário. Fico doente quando vou presidir uma audiência e está marcada para aquele horário e não chegam as pessoas. É claro que não vou querer transformar aqui num quartel, mas vou procurar disciplinar um pouco mais a Câmara. Eu gostaria, por exemplo, que a mesa, nas sessões, estivesse uniformizada. De paletó, gravata. Não quero um cara lá de camiseta. Mas tem vereador que vem do mundo civil, não posso condená-los, mas eu tenho esse pensamento. Vou conversar com eles para ver se a gente dá mais um ar de responsabilidade no negócio. Por exemplo: passa aqui no corredor [da Câmara] agora [a entrevista foi concedida no gabinete de Boanerge], você vê o pessoal da segurança: um está com sapato outro, outro com tênis vermelho. Não recebem uniforme? O munícipe que está aqui, que olha alguém todo desleixado, é difícil. Não sei se é possível discutir isso com meus pares, com o Ministério Público, se legalmente pode-se fazer: a segurança aqui, que segurança é essa? No máximo são ascensoristas. Não estou desqualificando o pessoal, prestaram concurso. Mas não pode se chamar de segurança. Essa segurança teria que ser terceirizada. O funcionário de carreira causa prejuízo ao erário: você tem que pagar férias, 13º, licença saúde, licença gravidez, quinquênio. O terceirizado não, está ali com postura, se não vem, repõe, põe outro, não tem férias, não tem 13º. Se não vem, você paga proporcional. Fizemos isso no município [prefeitura]: a Atividade Delegada, por exemplo, é mais barata do que pagar GCM (Guarda Civil Municipal). Existe muita falta, principalmente final de semana e feriado, daí a porteira fica aberta. Você não consegue atender os postos. O policial está pronto: você paga a hora dele, não mais nenhum compromisso. O funcionário de carreira, trabalhando ou não trabalhando, ele recebe. É um círculo vicioso. Se for possível, vamos pensar numa terceirização.

Outra coisa: eu sou contrário a ter mais de 20 veículos aqui. Eu, por exemplo, uso o carro da Câmara raramente, ando muito a pé. Vereador não tem que andar de carro, salvo uma coisa ou outra. E, se anda, tem que andar com responsabilidade. Eu vou propor isso, reduzir frota. Por exemplo: temos aqui mais de 20 motoristas, um trombando com o outro. Se fosse tão fácil, deixava só motorista para o [setor] administrativo, três ou quatro, para se precisar ir a São Paulo, levar algum documento. Aí você economiza em veículos, economiza em combustível, economiza em seguro de veículos, economiza garagem, economiza manutenção. Sou a favor também de controlar os motoristas. Sai aqui agora e vê onde estão os motoristas. Está todo mundo na rua, resolvendo problema particular. Você [vereador] não tem demanda todo dia, toda hora, o dia inteiro. Deu uma folguinha… aí é gasolina que você está pagando. Então, sou a favor de controlar isso, a exemplo do que temos na Polícia Militar, que tem uma folha de controle: KM, horário, onde foi. Nós temos que parar com essa coisa de que só temos direitos. Funcionário é assim: ele ganha uma coisa hoje, amanhã quer outra. Mas quando vai cobrar responsabilidade… não estou habituado a isso. Isso não quer dizer que vou conduzir isso aqui com mão de ferro, mas algumas coisas eu preciso ajustar, chegar em um meio termo, pelo menos. Vai ser difícil, mas quero dar minha cara a isso.

Outro exemplo: vem aqui no verão, tem três ou quatro carros da Câmara ligados, com ar-condicionado, e o motorista está lá dentro. E às vezes nem está lá dentro: é só para, se precisar, o carro estar geladinho. Tá de sacanagem comigo, o carro fica duas, três horas ligado.

Quando eu vim para cá, alguns motoristas passaram por mim aqui [no gabinete], e diziam: ‘não dá para digir para ele’. Porque, as poucas vezes em que usei, os caras começaram: ‘vamos viajar’. Eu viajo quando tem necessidade. Aí ele migrava para outro [vereador]. Aí deu no que deu [em referência ao caso da ‘Farra das Viagens’, revelado pelo jornal em julho]. Só que ele [motorista] colocou o dele no bolso e não está respondendo por nada [já os vereadores são investigados pelo Ministério Público nas esferas cível e criminal]. O funcionário de carreira pensa: ‘esse cara está aqui de passagem. Eu vou ficar 30 anos aqui, talvez ele nem vá ser reeleito. Quem manda aqui somos nós’. Eles pegam uns caras inexperientes e fazem. Ele [motorista] pôs o dele no bolso, mas quem está respondendo [vereador], foi no embalo. Na prática, entendo que já acontecia [há anos], mas as coisas mudaram. Você tem que acompanhar a evolução.

OVALE: Sobre a questão das viagens, o senhor acha que dá para reduzir o valor das diárias e dos ressarcimentos de despesas?

Boanerge: Acho que os funcionários da Câmara não ganham mal, ganham mais até que vereadores. Não só os vereadores, como também os funcionários, têm que entender que temos 14 milhões de desempregados. Eu pretendo enxugar ao máximo [as despesas], ver o que dá para ser feito, puxar daqui e dali, com a maior lisura possível. Sei que não vou ser bem-visto por isso, mas vou tentar fazer. Não posso dizer que vou fazer porque muitas vezes depende de quórum, da legislação, mas a minha vontade era de que não existisse nada disso [ressarcimento de despesas de viagem].

Mas também acho, para ser honesto, que vereador ganha muito mal. Se fizer um comparativo com Tremembé, proporcionalmente, com Pindamonhangaba, você vai ver. Até em relação ao funcionalismo, ganha muito mal. Chefe de gabinete ganha mais do que vereador.

Se eu pudesse, não teria essa frota de veículos. Mas, se tiver que ter, não compraria mais, partia para a terceirização: alugar veículos. Não tem [gasto com] manutenção, seguro. Quebrou, repõe. Agora fica essa frota aí, que aos poucos vai sendo sucateada. Isso tudo propicia a corrupção. Um contrato aqui, outro ali. Fica mais barato a locação.

OVALE: Sobre o caso das viagens, o senhor acha que houve abuso por parte de vereadores?

Boanerge: Não vou comentar com relação a abusos, a necessidade que cada um viu para fazer seu trabalho. Não vou discutir isso. Agora eu, claro, vou orientar, não tenho piedade. Eu me viro, eu faço. Não estou obrigando ninguém a andar a pé, mas as pessoas têm que se conscientizar de que nós temos que prestar contas à sociedade. Se você não dá exemplo, fica difícil.

OVALE: O senhor pensa em trocar a equipe de direção da Câmara?

Boanerge: Vou sentar com meu pessoal, confesso que não tomei decisão com relação a isso. Não pensei na equipe. Pode ser que a gente mantenha os mesmos, vou consultar o pessoal. Fica difícil fazer uma coisa [sozinho], daí já se torna um ditador. Em que pese eu venha de um mundo militar, sou contrário aos extremos. Sou de direita, mas de uma direita mais centralizada. Vou procurar ouvir e a competência. Não adianta nada querer trocar e colocar uma pessoa que não vai fluir.

OVALE: O senhor pretende melhorar a transparência da Câmara?

Boanerge: Vou seguir a lei. E, ainda que não fosse lei, sou aberto a isso. Acho que a transparência tem que existir. Pediu [informação à Câmara], tem que estar ali. Senão, dá a impressão de que tem algo a esconder.

OVALE: O senhor falou sobre salários. O senhor defende o aumento para os vereadores, na próxima legislatura?

Boanerge: Eu defendo o aumento, mas desde que tenha algumas razões. A primeira delas é fazer paralelo com as cidades [vizinhas], para pode equilibrar isso. A segunda é se eu conseguisse uma compensação muito maior do que isso para apresentar para a sociedade. Por exemplo: se eu conseguisse eliminar 20 veículos daqui, e consequentemente os motoristas, aí você faz a conta. Você tem que tirar de alguma forma. Não pode simplesmente colocar um projeto desse e não dar uma justificativa para a sociedade. Não faria isso de forma alguma aleatoriamente, da noite para o dia. Tem que ser muito bem detalhado, muito bem estudado. Mas não vou pensar nisso agora. Agora penso em equilibrar as contas. Mas futuramente, se houver uma pressão, entre aspas, dos meus pares, vou colocar isso na mesa, falar que quero contrapartida. E tem que ser uma contrapartida muito vantajosa.

OVALE: O senhor foi eleito em um grupo que tem base, vereadores independentes e oposição. A pauta da Câmara será mais democrática?

Boanerge: Sim, pretendo democratizar as pautas. Eu tenho isenção para fazer isso. O governo tem a independência dele lá [na prefeitura], eu tenho a minha aqui. Eu pretendo sentar na mesa com 19 vereadores. Não serão só os interesses do governo, vou trabalhar para a sociedade. Se não fosse assim, não teria aberto espaço para o pessoal da oposição na mesa.

OVALE: O senhor era diretor de Segurança do Ortiz e fez parte da Bancada do Amém. Mesmo assim, a relação vai ser de independência em relação ao prefeito?

Boanerge: Eu sou governo, mas vou democratizar a Câmara. Essa liberdade eu tenho. Eu sofri pressão para desistir da candidatura, e não desisti. Eu não era o candidato do governo. O governo tinha dois candidatos. O [Ortiz] Junior sequer participou desse processo eleitoral, não deu nenhum palpite. Ainda não identifiquei de onde veio essa pressão, mas foi internamente, não recebi nenhum telefonema, nenhuma proposta externa. Foi aqui, causando a impressão de que tinha algumas coisas obscuras. Mas, de qualquer maneira, com tudo que me propus a fazer, vou até o final.

OVALE: O senhor citou várias vezes que vai democratizar a Câmara. Uma grande reclamação é que o acesso à Tribuna Livre é negado a moradores que fazem críticas a vereadores. O senhor pretende mudar isso?

Boanerge: Não vejo nenhum problema. Mas, a partir do momento que começa a interferir, que começa a baixar o nível… tem que ser democrático, mas não pode ser vandalismo. Se sentir que o negócio está extrapolando, aí não dá. A população não pode achar que isso aqui é uma latrina. Coisas tendenciosas, não dá. Pretendo abrir, mas com ressalvas. Tem que ter disciplina para tudo. O respeito tem que ser recíproco.

OVALE: Grupos de moradores fazem rotineiramente protestos nas galerias da Câmara. O senhor pretende restringir isso de alguma forma.

Boanerge: Eu vou conversar com eles, porque cada ação provoca uma reação. Eu não concordo com a maneira que eles fazem [os protestos], não ligo que façam, mas acho que extrapolam um pouco. As reivindicações têm que acontecer, mas têm que ser respeitosas. Tem que ter limite. Não pode ficar ali falando coisa, atingindo vereador. Se tem alguma prova contra vereador, vai na Justiça, mas não fica ali denegrindo. As manifestações podem ocorrer, mas de forma ordeira. Acho que dá para a gente organizar as coisas.

OVALE: O senhor está no primeiro mandato, são dois anos. Acha que vai ter dificuldade para comandar a Câmara?

Boanerge: Vou ter dificuldade sim, assim como tive na prefeitura, na polícia, aqui quando cheguei. Eu não estava preparado para ser vereador, mas você tem que se virar. Não vou dizer que estou totalmente preparado para assumir essa função, mas vou contar com meus pares, com as pessoas que já passaram pela presidência, que têm experiência. Vou fazer do meu jeito. Quando perceber que as coisas precisam de pulso, vou ter que fazer.

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