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Brasil
Outubro 10, 2018 - 22:05

'Dignidade humana não é mais um valor, se perdeu', diz cientista social

Eleições

Política. Movimento durante o domingo de eleições em São José

Foto: Rogério Marques/OVALE

Para Dora Soares, cientista Social e Política, a campanha eleitoral e as eleições revelaram um país dividido, violento e intolerante com o outro que pensa diferente; militantes de direita e esquerda se veem como inimigos

Xandu [email protected]

A política divide. Sempre dividiu, mas opiniões.

Nesta eleição, a divisão atingiu as pessoas. Dois opostos politicamente não são mais capazes de conviver. Não há debate. Há discussão. Não há enfrentamento de ideias. Há confrontação e violência.

Dessa maneira, todo mundo tem a razão de não ter razão nenhuma. Onde estava esse país que ninguém viu?

Essa é a pergunta que Dora Soares, cientista Social e Política, se faz após a campanha eleitoral de 2018 e o resultado das eleições.

Para ela, a quantidade de fake news que correm pelas redes sociais são a prova inequívoca de que a verdade foi a primeira vítima do processo eleitoral.

Ela torce para que cidadãos não sejam a segunda.

"Não há uma análise madura e profunda do que acontece no país. É um debate muito raso e um discurso monopolista", afirma a estudiosa da questão política.

"Onde estava esse ódio, esse complexo de inferioridade, como ninguém percebeu. Há militantes que defendem abertamente a violência. Vejo uma ameaça terrível à dignidade humana e uma inversão do direito sobre o corpo do outro", completa.

FUTURO.

O clima de confrontação não serve aos interesses do país, segundo Dora. Ela teme que o Brasil saia tão cindido do processo eleitoral que uma união em torno de um projeto de desenvolvimento não seja mais possível.

"A defesa da violência não é caminho, mas é defendido como se fosse um caminho viável. O discurso do preconceito e da violência está colocado, e milhares de pessoas estão legitimando isso, o que é terrível para o país, para o amanhã".

As redes sociais se tornaram campo minado de ameaças, agressões e rupturas, muitas vezes entre familiares e amigos de longa data.

Foi o que ocorreu com A.C., 28 anos, de Guaratinguetá. Por defender o voto contrário ao do tio, a artesã foi excluída da rede social pelo familiar, que não atende sequer seu telefonema.

"É como seu eu tivesse cometido um pecado mortal. Ele simplesmente deixou de falar comigo só porque nosso candidato é diferente no segundo turno. Ele me chamou de comunista e de coisa muito pior", disse a artesã por meio de uma rede social. Ela pediu para não ser identificada.

FOSSO.

Segundo Dora, algumas características dessa violência podem ser identificadas.

"Percebe-se um ódio de classe muito claramente. Um ódio contra minorias, como negros, mulheres e gays. O pior é que candidatos que pregaram essa ilegalidade do discurso do ódio cresceram nas pesquisas, mesmo entre os mais pobres. É preciso estudar essa manifestação de repúdio à política".

Dora admite que o país "sempre foi violento" contra as minarias, mas ela acredita que a situação pode piorar com a polarização política.

"O constrangimento do brasileiro de não perceber que já temos uma vida muito violenta e isso pode piorar", afirma.

No fundo, ela percebe um discurso de moralidade que não se sustenta à luz da razão, nem das leis.

"Os direitos humanos estão na constituição, mas isso não interessa. Há um desvio moral e ético profundo. A população deixou claro que não tem importância de que haja corrupção, porque se age independente da lei. E porque seria diferente no plano econômico. Há candidato que quer ter o direito de ser ilegal. É chocante e falta de amor próprio na população", afirma a cientista.

Dora ainda vê uma tentativa de tutelar a liberdade da população e impor um jeito "militarizado" de se viver, uma condição de "autoritarismo, obediência e hierarquia" que contrasta com valores republicanos e iluministas.

"Qualquer tipo de liberdade e cultura está em xeque. Ressalta-se um modo de viver como os militares, que não criticam nada, são submissos. Como é possível que uma sociedade aceite essa pregação da violência".n

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