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Agosto 02, 2018 - 00:12

Jovem de 12 anos de Jacareí alcança o sonho do Bolshoi

viver Isac

viver Isac

Foto: Divulgação

Paula Maria [email protected]

"Esse menino não sai de lá de dentro e eu aqui sem notícia", pensava Monique Paes agoniada no saguão do prédio da Escola do Teatro Bolshoi, em Joinville (SC). De tempos em tempos saia uma criança lá da porta principal. Geralmente chorando.

"Menino, você estava lá na seletiva? Quem mais está lá?" "Sim. Agora só restaram quatro meninos. Três grandões e um miudinho". O coração da bailarina e coreógrafa de Jacareí parecia que ia sair pela boca. "Não é que Isaac estava conseguindo passar pelas fases?", orgulhou-se do aluno.

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Ela sabia. Pescoço comprido, costas largas, quadril fechado, pernas em "X". Quando Isaac Otávio Gomes da Silva, hoje com 12 anos, pisou na sua academia de dança, Monique percebeu imediatamente: o garoto tem tudo para ser um grande bailarino. "Eram várias crianças na audição. Mas ele tinha uma luz própria", cravou.

Vindo de um projeto social de Jacareí voltado para a cultura e capitaneado pela associação Fênix, o garoto "caiu de paraquedas" na dança. Acompanhando a mãe, que fazia inscrição de seu irmão nas aulas de percussão, Isaac se deparou com a sala de balé. A porta aberta lhe pareceu um convite. Perguntou se podia participar. Foi bem-vindo.

"Vi lá dentro um menino dançando. Ele dava piruetas. Achei legal. Queria aprender também", contou Isaac, com sua simplicidade infantil.

"Ele ficou três anos conosco e a professora, vendo que ele era muito bom, pediu para arrumarmos um lugar em que pudessem realmente prepará-lo para ser um bailarino profissional. A Monique é nossa parceira, fornece algumas bolsas de estudo aos nossos alunos. Então o apresentamos a ela", contou Juliana Dualibi, coordenadora da associação.

Marcada uma audição, meio pelo qual entram todos os bolsistas da academia, Isaac foi aceito. Morador do Rio Comprido, bairro considerado de extrema vulnerabilidade social, com pai falecido, mãe guerreira e vários irmãos, Isaac viu sua sorte mudar.

Passou a ir para a escola pela manhã; almoçar em um restaurante parceiro do projeto e chegar às 14h na academia onde permanecia até às 20h e fazia as aulas da tarde.

"Isaac é muito bom. E eu sentia que estava chegando a hora dele 'voar'. Quando vi um anúncio da Bolshoi sobre a seletiva, não tive dúvida. Fizemos uma força tarefa, arrecadamos dinheiro e o inscrevi", contou a bailarina, que hoje fornece tudo o que o menino precisa para se dedicar a dança.

Dedicação, treinos específicos, cansaço físico... "Cada aula dura pouco tempo. Para fazer de qualquer jeito, melhor nem fazer! Então eu faço direitinho", disse Isaac sem saber claramente que essa disciplina é a chave de seu sucesso.

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Se de um lado do prédio Monique era pura ansiedade; de outro, Isaac fazia aquilo que sabe de cor e salteado.

Dos 291 candidatos para a sonhada vaga no Bolshoi, ele estava na fase final de um processo bastante rigoroso que passa pela execução de movimentos básicos e encerra na medição corporal.

Há poucos dias, o resultado: "Isaac Otávio Gomes da Silva é um dos sete selecionados. Ele foi aceito em uma das mais conceituadas escolas de balé do mundo", afirmou Monique sem conter a emoção.

E agora, Isaac, você quer ir? "Claro que quero!", garante ele, ainda sem se dar conta do tamanho de seu feito, mas já ciente de que o preconceito embutido nas piadinhas bobas que ouve hoje de colegas e familiares que não entendem a sua paixão pelo balé o acompanhará infelizmente por muito tempo.

Futuro.

O terceiro capítulo da história da vida do estudante começa a ser escrito agora. Mas ainda são desconhecidos os "personagens - parceiros" que irão ajudar a contá-la.

Se o primeiro grande desafio foi cumprido com rigor. Agora Monique e Juliana estão diante do segundo: "a escola dá bolsa, mas não estadia. Há um projeto do Bolshoi em que famílias 'adotam' as crianças que vão para lá estudar. Elas ficam responsáveis por garantir que os alunos vão a escola regular, se alimentem direito e não lhes faltem nada. Mas isso tem um custo médio de R$ 1200 por mês", disse Juliana.

Trata-se de uma corrida contra o tempo. O curso, de oito anos, inclui aulas de piano, repertório clássico, arte e dança. E Isaac terá de estar na escola no dia 13 de agosto, data limite para que ele se apresente em Joinville para a sua primeira aula.

"Estaremos lá. Ainda não sei como, mas estaremos!"..

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