São José dos Campos
20º / 26º
No decorrer do dia o dia terá com variação de nebulosidade na região.
Viver
Setembro 11, 2017 - 20:29

Uma(s) com a(s) outra(s), em um sonho de liberdade

Efêmeras

Efêmeras

Foto: Flavio Racy/Divulgação

Confira crítica da peça 'Efêmeras', do Coletivo de Criação, por Simone Carleto

Simone Carleto
São José dos Campos

Escrevo essa crítica ao espetáculo "Efêmeras", às 4h do dia 8 de setembro, logo após o encerramento do bate-papo, por volta das 2h. Nua, acima do peso, sozinha no quarto do hotel em São José dos Campos. A memória, porém, não nos deixa nunca a sós. O som do teclado lembra as máquinas de escrever que tanto povoaram as madrugadas na infância. As imagens produzidas pela performance de produção de imagens como um retroprojetor me transportou para as atividades de desenho, pintura, colagem e até um teatrinho de feltro com que eu brincava quando pequena.

Quantas reminiscências, quantas sensações guardadas. Imagino quantos atravessamentos foram possíveis para quem vivenciou a peça de hoje. Tema da maior relevância na contemporaneidade, a busca do espaço da manifestação do feminino e a luta por equidade de gênero transbordam em palavras proferidas a partir do útero que se configurou no espaço cênico. Como observou Fabiana Monsalú, que mediou o debate, o útero às vezes nos convida e às vezes nos deixa à margem. Talvez tenha mesmo de ser assim.

Contradições, reprodução de relações machistas na maternidade que educa os homens. Semea-dura, enfrentamento, gritaria. Dava vontade de mergulhar nas imagens do projetor, na tela que figurava no fundo da cena, como um mar de possibilidades. E queria uma câmera filmando a presença sutil, forte, determinante de Liliane produzindo aquelas imagens. Com brilho , sopro, respiração, líquidos, cores, e uma transparência avassaladora. A sonoridade dos vidros quebrados foram menos cortantes que a percepção de que aquelas cores e formas invadiam a cena. Trazendo luz e sombra como uma constatação da efemeridade. Muito mais efêmera que a própria cena, pois os acasos a protegem. Outro desejo era que a cena de luta fosse a primeira, o ponto de partida. Essa cena, do ponto de vista de impacto do jogo cênico, é a que mais me mobilizou como espectadora. Uma luta marcial com utilização de bastões, cuja preparação foi feita por: André Cruz. Ela me trouxe uma presença das duas atrizes muito viva e pulsante. Então, todos os elementos da natureza presentes no espaço fizeram sentido.

Cabaça, palo santo, jarros, castanholas, barro, girassóis, balanços, tudo belissimamente organizado com gaiolas estilo retrô iluminadas e com função de metaforizar a busca por liberdade. Essa liberdade é fundamental. Que as atrizes possam dizer o texto que precisa ser dito. Que essa discussão seja feita da forma que elas escolheram. E que os afetos que levam a pensar como poderia ser no que diz respeito à estética seja apenas mais um exercício de liberdade. Pois, aqui e agora, é mais importante a sororidade, o respeito aos diferentes processos de (des)construção cultural das diversas camadas de contradição a que todas nós estamos sujeitas. Sem nos sujeitar, podemos ser sujeitas de nossa própria criação. E poder sonhar como pássara – que não existe, ou como borboleta – que quem já foi um dia sabe que, por mais que suas asas sejam cortadas, elas sempre voltam a surgir. Porque há lados e aladas.

Efêmeras encerrou a programação do dia 7 de setembro do Festivale. O espetáculo foi produzido pelo Coletivo de Criação, formado a partir do encontro de Michelle Maria e Flávio Racy, da Cia. Teatral A DitaCuja, Thais Foresto, da Cia. Teatral Tertúlia, e Michel Masson, da Cia. Abrindo Portas de Dança Atuação, todos artistas de Ribeirão Preto. Michelle Maria e Thais Foresto atuam na encenação assinada por Flávio Racy, também responsável pela cenografia. A iluminação e preparação de elenco ficam por conta de Michel Masson e a dramaturgia por Thais Foresto. Camila Kerr colabora na trilha sonora: e Kerem Apuk opera o som. Performance de produção de imagens Liliane Freitas. Parabéns a todas as pessoas envolvidas.

Seguimos juntas na luta.

Simone Carleto

(Crítica do 32º Festivale. Artista pedagoga, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Unesp. Foi atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação de 2001 a 2008. Participou da implantação e coordenou a extinta Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, de 2005 a 2016)

Publicidade
Publicidade
Publicidade  
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

BRASIL

MUNDO