São José dos Campos
20º / 26º
No decorrer do dia o dia terá com variação de nebulosidade na região.
Viver
Setembro 11, 2017 - 20:24

Vanguardas e existencialismo dão forma ao espetáculo da Cia Talagadá

Cabeça Oca

Cabeça Oca

Foto: Divulgação

Confira crítica da peça 'Cabeça oca', da Cia. Talagadá, por Simone Carleto

Simone Carleto
São José dos Campos

A Cia Talagadá - Teatro de Formas Animadas, de Itapira, trouxe para o Festivale o espetáculo "Cabeça Oca", no dia 8 de setembro, às 18h no Teatro do Sesi. O grupo apresenta bonecos de tamanho humano, utilizados como um segundo corpo dos atores, e também bonecos manipulados no escuro. Também apresentam máscaras que fazem parte dos bonecos, e outras que são vestidas pelos atores, completando o conceito de máscara corporal utilizado pelo teatro performático que realizam.

O enredo mostra o ser humano contemporâneo, abordando temas como alienação, violência, inércia, entre outros que fazem parte da discussão da humanização/desumanização da sociedade. Há cenas que retratam a vida cotidiana, a cultura de massa e a ideia de máscara social que, quando retirada, deixa o vazio da falta de identidade e do pensamento crítico. Outra cena apresenta o inusitado jogo da amarelinha, em que a boneca/menina retira a cabeça no lugar da pedrinha que marca o número que será pulado. E, no final, pula para o inferno. Uma espécie de papa-defunto apresenta a tesoura que ceifa vidas, levando as carcaças externas dos supostos humanos, deformados pelo sistema. O corpo seria um invólucro de uma essência perdida.

Essa idealização é retratada a partir de imagens surrealistas, oníricas ou nonsense. Um dos pontos altos é a cena que retrata um laboratório científico que investiga o que há dentro da cabeça humana. Um cientista de duas cabeças mostra os conflitos internos desta figura, em um verdadeiro espetáculo de manipulação dos dois atores.

A possibilidade desse tipo de espetáculo no Festivale é bastante importante, pois a busca por formas diferenciadas de abordar temas recorrentes na atualidade, como a crise política, ganham abordagens teatralistas, de modo a aguçar os sentidos, possibilitando entendimentos diferenciados com relação ao texto falado. Os aspectos dramatúrgicos da obra podem ser ainda mais aprofundados, em perspectiva de coerência com os tratamentos estilísticos escolhidos, bem como o trabalho performativo dos atores. É um trabalho encantador e surpreendente pela potência imagética, reafirmando que toda obra é política e que ludicidade, poética e senso crítico podem sim estar juntos em um trabalho artístico.

O grupo confecciona cenário, bonecos, máscaras e adereços, de modo primoroso e artesanal, com clara inspiração das artes visuais na construção da obra. A trupe é formada por Danilo Lopes, João Bozzi e Valner Cintra, que assina a direção do espetáculo. A trilha sonora é de Luis Giovelli, vídeo de João Vitor Ferian, enquanto os figurinos são de Nair Ramos Cintra.

Simone Carleto

(Crítica do 32º Festivale. Artista pedagoga, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Unesp. Foi atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação de 2001 a 2008. Participou da implantação e coordenou a extinta Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, de 2005 a 2016)

Publicidade
Publicidade
Publicidade  
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

BRASIL

MUNDO