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Setembro 11, 2017 - 11:33

Uma obra a um só tempo lírica e visceral

Pé na Curva

Pé na Curva

Foto: Victor Natureza/Divulgação

Confira crítica a peça 'Pé na Curva', da Cia. de 2, por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite
São José dos Campos

O teatro do absurdo em moldes grotescos. Assim se poderia definir, conceitualmente, o espetáculo "Pé na Curva", apresentado no 32º Festivale pela Cia. de 2. Inspirado em alguns pressupostos discriminados no livro O Teatro do Absurdo (1961), do teórico húngaro Martin Esslin, "Pé na Curva" não conta uma história, mas, ao invés disso, apresenta uma situação: duas figuras andrajosas (Tolo e Infeliz), supostamente sobreviventes de um mundo pós-apocalíptico, estão perdidos em um lugar qualquer e não sabem o que fazer para realizar uma missão que teriam de cumprir. A partir desse pretexto, de caráter antidramático, articula-se uma relação de poder e dependência entre as personagens que se configura no próprio sustentáculo da obra, materializada pelos diálogos e pelos jogos de cena.

Em se tratando de um espetáculo inserido em tal vertente, normalmente interessada nos problemas fundamentais do homem – como, por exemplo, a falta de sentido da condição humana – a instauração de um clima, ou, melhor dizendo, de uma atmosfera, costuma ser importante, no propósito de transmitir uma visão particular da existência. Em "Pé na Curva", vários elementos se conjugam para que isso ocorra: o uso muito criativo da luz, os já mencionados figurinos e, com certeza, as expressivas maquiagens utilizadas pelos dois atores. Essas, configuradas ao modo de caveiras, remetem a uma longa tradição de crânios reproduzidos pelas artes plásticas, cujo sentido moral se liga à sentença latina de origem medieval memento mori (“lembra-te de que morrerás”).

No que concerne à dramaturgia, dentre os principais nomes elencados por Esslin como “autores do absurdo”, o espetáculo do grupo joseense demonstra clara inclinação pela obra de Samuel Beckett, em especial as peças "Esperando Godot" (1953) e "Fim de Partida" (1954). Muito esquematicamente, se poderia afirmar que, da primeira, Pé na Curva conserva os aspectos clownescos presentes nas personagens de Wladimir e Estragon. Da segunda, o sadismo que permeia a relação de Hamm e Clov. Contudo, mesmo se apropriando desses elementos, a dramaturgia do espetáculo é plenamente original, reverberando acima de tudo o espírito e não, como se poderia imaginar, a letra do referencial beckettiano.

Repleto de momentos ternos e outros bastante engraçados, e mantendo um equilíbrio eficaz entre uns e outros, o texto de "Pé na Curva" realiza-se dentro de uma linha que extrapola a questão da absurdidade, genericamente designada pela expressão “teatro lírico”. Se aqui seria difícil resumi-lo, isso acontece pelos mesmos motivos que dificultam o resumo de um poema, na medida em que seu interesse não está contido em nenhuma intriga, mas, sim, na elaboração de um “estado de alma”.

Para além da qualidade dramatúrgica, "Pé na Curva" oferece, por parte de seus atores (Jean de Oliveira e Jonas Di Paula), uma atuação visceral, que inclui em seu repertório cusparadas e tapas na cara, a ingestão em cena de uma cebola, nudez etc. Nada, diga-se de passagem, gratuito. Pelo contrário: demonstrando uma afinação rigorosa, seja na vocalização, na contracenação ou nos jogos de cena, toda essa imersão corporal revela-se portadora de um enunciado à parte, que se prende mas, no fim das contas, acaba superando o enunciado verbal. Um enunciado, de resto, ligado à estética do grotesco.

Tomando-se como base a obra apresentada neste Festivale, a Cia. de 2 tem tudo para se tornar, dentro da linguagem por ela propugnada, uma referência extrarregional, lembrando que atualmente "Pé na Curva" encontra-se em cartaz no Espaço dos Parlapatões em São Paulo.

Rodrigo Morais Leite

(É doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, onde desenvolve pesquisa nas áreas de crítica e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos)

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