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Setembro 11, 2017 - 11:20

A performatividade do EmFoco Grupo de Teatro, de Fortaleza, desembarca em São José dos Campos

"Price World ou Sociedade a Preço de Banana"

"Price World ou Sociedade a Preço de Banana"

Foto: Divulgação

Confira crítica da peça 'Price World ou Sociedade a preço de Banana', do Emfoco Grupo de Teatro, por Simone Carleto

Simone Carleto
São José dos Campos

A sinopse do espetáculo "Price World" ou "A sociedade a preço de banana" traz a seguinte informação "Welcome to Price World!". Aqui temos regras preestabelecidas, temos vontades loucas, temos Deuses concretos. Temos a felicidade sem fim, temos o poder. Em "Price World" todos podem, basta querer. Sem nunca deixar de lado as regras de "Price World.”

Em busca da abordagem do mundo onde tudo é possível, "Price World" é um espetáculo que transborda a iconoclastia característica da juventude. Formada por jovens nascidos nas décadas de 1980–1990, a trupe representa a juventude atual, esgotada pela indiferença de uma sociedade que a bombardeia com as violências cotidianas perpetradas pelos aspectos coercitivos em profusão: educação machista, homofóbica, autoritária, e tudo aquilo que busca impedir que as pessoas expressem suas características, aquelas tão comentadas na atualidade e que concernem ao respeito à diversidade.

Como outros espetáculos participantes do 32° Festivale que discutem questões contemporâneas, "Price World" é um espetáculo necessário pela forma e conteúdo discutidos na obra. É de extrema relevância que se dialogue a respeito dele, dos temas e afetos que traz à tona. Os performers-intépretes-atores-jogadores conduziram o público de 40 pessoas em um ônibus, partindo da sede da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, antiga fábrica de cobertores Parahyba, através de uma espécie de safari pela cidade, passando em pontos específicos. A excentricidade a ser observada é o comportamento humano, como animal exótico.

Um dos objetivos é provocar a reflexão, estranhamento e autocrítica com relação à conivência com esse sistema a ser combatido. Para tanto, elementos característicos da performance, "happening" e outros experimentados nas vanguardas históricas do final do século 19 e início do século 20, assim como experiências do teatro pânico, são retomados. Portanto, choque, ironia, escatologias, rompimento com academicismo, explicitação da indiferença social e estupidificação do espectador são empregados. O escárnio do Futurismo, a fala automática do Dadaísmo e a personagem de-composta em figuras do Surrealismo estruturam o roteiro da excursão.

Os figurinos remetem ao mundo cibernético da comunicação em redes, com lances muito criativos como a confecção de um vestido composto por etiquetas que cada pessoa do público precisa retirar da roupa para trocar pelo ingresso. Muitos pontos do roteiro são extraídos dos jargões de companhias aéreas, que são desconstruídos. Ícones da música de massa, de Xuxa a pop dance music povoam a trilha sonora. São visitados locais da cidade emblemáticos do poder e da hipocrisia, chamando a atenção para os absurdos e extravagâncias do sistema capitalista, próprios da sociedade de consumo.

Repleto de nervuras e contradições, o experimento teve seu ponto alto num local de diversão típico de classe média, em que os presentes também se tornam "animais em exibição” e espectadores de nossa viagem. Uma dupla de performers aproveitou um automóvel estacionado à porta do estabelecimento, símbolo de status, para simular a re-lação de gozo e exibicionismo que há em “possuir" um desses exemplares.

Seria interessante o grupo radicalizar também a pesquisa no sentido de aprimorar o roteiro em termos de dinamismo das cenas, por exemplo, escolhendo apenas algumas pessoas para determinados procedimentos que executam no ônibus. Alguns recursos cênicos repetidos também podem ser substituídos por outros expedientes performáticos. Outro exemplo de modelar elaboração realizada pelo grupo é a performance exibida antes do embarque no ônibus, na qual um dos performers contracena com as próprias imagens previamente gravadas e editadas, ao som de uma brilhante trilha sonora formada pela colagem de jingles.

Algumas inconsistências no que se refere ao posicionamento ideológico da obra precisam ser cuidadas, por exemplo, ao objetificar o corpo da mulher ou tratar de modo pejorativo a prostituição feminina; assim como a ideia de oferecer comida instantânea, um não-alimento, para população em situação de rua recolhida em abrigo; ou como observado durante intervenção de uma espectadora no bate papo pós-espetáculo, o fato não haver atores negros no elenco. Existem limites ou exigências para a arte? É o que estão experimentando os performers Bruno Caetano, Camilla Ferreira, Dyhego Martins, Eduardo Bruno (que assina a direção), Georgia Dielle, Lyvia Marianne, Waldírio Castro, Marcelle Louzada, Marie Auip e Melani Martins. Os figurinos são de Gabriel Matos. O "anjo" do grupo foi a também performática drag palhaça Salomé, de Guilherme Venâncio.

Simone Carleto

(Crítica do 32º Festivale. Artista pedagoga, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Unesp. Foi atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação de 2001 a 2008. Participou da implantação e coordenou a extinta Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, de 2005 a 2016)

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