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Política
Maio 12, 2017 - 16:12

Entrevista Carlinhos Almeida

Carlinhos Almeida

Carlinhos Almeida

Foto: Claudio Vieira / OVALE

Redação
São José dos Campos

Fora do Paço Municipal desde 31 de dezembro do ano passado, quando deixou lugar para o sucessor Felicio Ramuth (PSDB), o ex-prefeito de São José dos Campos Carlinhos Almeida (PT) voltou às atividades como bancário na Caixa. Nessa semana, concedeu uma entrevista ao jornalista Hélcio Costa, do blog Dois Pontos, falando abertamente pela primeira vez sobre política, vida-pós prefeitura e seu futuro.

Confira, na íntegra:

Carlinhos, boa tarde, obrigado pela entrevista. Vamos começar a falar de política: que balanço vocês faz dos quatro primeiros meses de mandato de seu sucessor, Felício Ramuth (PSDB)?

Quando deixei o cargo, disse, e os jornais registraram, que não seria um ex-prefeito de oposição, que ficaria dando palpite no governo de quem me sucedeu. Por isso, vou falar apenas de um ponto.

Sempre trabalhei com a idéia de que você pode ter um programa, como eu tinha um programa, que em muitos pontos se diferenciava dos tucanos, mas você precisa ter uma continuidade administrativa. Porque? Porque a vida das pessoas não acontece de quatro em quatro anos. A vida das pessoas continua. A criança entrou na escola quando eu era prefeito, vai passar pelo Felício e às vezes até por um próximo prefeito.

Então, a única coisa que eu falaria sobre a atual gestão é que eu tenho uma visão diferente sobre a continuidade administrativa. Eu acho que não é um bom caminho o caminho de você interromper projetos, de paralisar obras, de tentar desconstruir marcas anteriores. Acho que a população perde com isso.

Você agiu diferente?

Você é testemunha –até o Marcos Meirelles fez um comentário (em artigo no jornal "O Vale", republicado pelo blog)-- sobre a forma como eu atuei no Vicentina Aranha e no Parque Tecnológico. Estou dando dois exemplos, de coisas fortes, que foram iniciadas pelo meu antecessor e que eu, em nenhum momento, eu cogitei enfraquecer. Aliás, neste dois casos eu mantive inclusive os gestores, a Ângela (Tornelli) do Vicentina Aranha e o (Marco Antonio) Raupp do Parque Tecnológico.

Agora, em relação ao atual prefeito, eu apenas torço para que ele faça o melhor pela cidade. Acho que a cidade merece e precisa, principalmente em razão do momento em que estamos vivendo –e eu acho que não existe muita diferença entre o momento que eu passei e o momento atual, de crise política, de situação econômica do país, situação difícil das administrações--, mas também em relação ao momento da vida e da história de São José.

Diversos projetos e obras deixadas pelo seu governo foram colocados em xeque pela atual administração. O fim de algum deles foi mais duro para você?

Eu acho que é ruim para a cidade, por exemplo, não ter a continuidade da Escola Interativa e de todo conceito que está por trás da Escola Interativa na Educação. É o conceito de modernizar a escola, torná-la mais atraente e agradável, e, ao mesmo tempo, instrumentalizar os alunos para esta nova economia que cada vez mais se consolida, em que a tecnologia tem papel fundamental, onde a pesquisa e o conhecimento científico têm uma posição central. A Escola Interativa, junto com o Centro de Ciências, estava tudo voltado a uma modernização da escola, na qual São José deveria ser pioneira. Afinal, (São José) é a capital da tecnologia.

Uma das críticas sobre a Escola Interativa se baseia no número de tablets quebrados, encontrados no Almoxarifado da Educação e no custo do programa.

Olha, o projeto começou em 2014 e nós estamos em 2017, três anos. Equipamentos eletrônicos utilizados por crianças e por adolescentes, muitas vezes com uso intensivo, é normal que tenha um desgaste desse material. Mas a questão para mim não é o equipamento em si, a infra-estrutura sobretudo, mas o conceito. Nós criamos o LEDI (Laboratório de Educação Digital e Interativa), que foi desestruturado, que é um espaço onde os professores, os educadores, junto com técnicos, com o pessoal da universidade, formularam, formaram, avaliaram, durante todo o período, a Escola Interativa.

Não sei se você chegou a conhecer o LEDI? Ali era um espaço onde o professor que dava aula no Campo dos Alemães convivia com o aluno ou professor da Universidade de São Paulo, com o pesquisador do Instituto RenatoArcher, com empresas que estão incubadas no Parque Tecnológico, com a FundaçãoLemann, desenvolvendo ali conteúdos, fazendo capacitação, trocando idéias. Isso é o que é o mais importante na Escola Interativa.

A Escola Interativa foi implantada em São José de maneira ousada, estruturada, articulada. Uma cidade que não tem a mesma condição (financeira) pode aplicar o conceito. O que eu vejo sendo desmontado é o conceito.

Você teve uma carreira ascendente no Legislativo, mas, no Executivo, você teve um mandato de quatro anos e acabou não se reelegendo. Aliás, seu adversário teve uma vitória expressiva, com 62% dos votos. Qual foi a diferença entre esses dois desempenhos, no Legislativo e no Executivo?

Eu vivi um momento muito difícil na prefeitura, financeiramente. A cada mês, a cada ano, só notícias ruins em relação à arrecadação, à receita da prefeitura.

Também a gente viveu uma crise política, que abateu, de forma mais pesada, o PT. Embora a crise política tenha atingido todos ... Você vê aqui no Vale: o PSDB perdeu a Prefeitura de Caçapava, com o prefeito candidato à reeleição, perdeu a Prefeitura de Guaratinguetá, com o prefeito candidato à reeleição, perdeu Caraguatatuba, onde o Antonio Carlos tem uma liderança em várias gestões. Então, esse mau humor político no Brasil atingiu todas as administrações, mas, particularmente, as administrações do PT.

A gente tinha pesquisas que mostravam a administração como boa, mas com essa indisposição política. Eu acho que é um direito do eleitor votar pelo motivo que ele achar que deve votar. A mim só resta respeitar essa decisão e tocar normalmente a minha vida.

Que balanço você faz dos quatro anos de seu governo. Onde o governo Carlinhos acertou e onde o governo Carlinhos errou?

O maior desafio em que conseguimos avançar pouco foi o desenvolvimento econômico. E, provavelmente, não houve sensibilidade de alguns atores políticos e da sociedade.

A gente poderia ter articulado melhor esse processo da retomada do desenvolvimento econômico de São José. Eu tenho um diagnóstico, e tenho ainda, muito claro, de que São José precisa se radicalizar como uma cidade de serviços. Para isso ela precisa modernizar a legislação, mudar uma cultura, que é de predominância ainda muito industrial. Para fazer essa mudança, você precisa fazer um acordo, um pacto na sociedade e na vida política. Nós não conseguimos avançar nisso. Você veja na Lei de Zoneamento, fizemos algumas mudanças pontuais no início do governo, que tiveram algum efeito na economia, mas a mudança maior nós não conseguimos fazer. A forma como foi recebido o WTC ...

Acho que acho que a gente poderia ter dialogado melhor com essas forças (empresários e políticos), mas principalmente com a sociedade.

Onde esse diálogo falhou?

Nós dialogamos, mas, talvez, não tenhamos conseguido sensibilizar as pessoas. Mas isso está ligado também a esse momento político que a gente viveu. Agora, acho que nós avançamos bastante no sentido de construir uma cidade mais inclusiva, com investimentos na Educação e na Saúde, com bons investimentos na Habitação e regularização.

Você disse que não quer fazer oposição. Agora, como o cidadão Carlinhos avalia essa largada do governo Felício Ramuth?

Eu já te disse, como cidadão, que você tem que ter uma visão de continuidade administrativa. Você fechar um parque como o Alberto Simões, você parar um projeto como a Estação Ciência, não é bom. Essa não foi uma diretriz minha ...

(Vocês querem mais um café? pergunta a garçonete)

Até porque, se você pega o Parque Tecnológico e o Vicentina, como disse, nos investimentos nesses projetos. O Parque Tecnológico era um loteamento irregular. Nós regularizamos, nos construímos novos espaços lá dentro, o Centro Empresarial, fizemos os editais necessários. No Vicentina Aranha, os prédios restaurados lá foram restaurados na nossa gestão. Mas isso, como eu disse, é a única coisa que eu vou falar sobre a atual gestão. Eu acho que esse não é um bom caminho.

Voltando para a eleição de 2016, a candidatura de Felício Ramuth foi menosprezada pelo PT? Teve gente do PT que comemorou a indicação dele como candidato contra você...

De jeito nenhum. A gente sabia da força que o PSDB tem em São José. Recorde-se que eu venci as eleições, em primeiro turno, é fato, mas com quase 51% dos votos válidos e meu adversário (Alexandre Blanco), que teve um bom desempenho na campanha, teve 43% dos votos. O PSDB tem uma força na cidade, tem lideranças como Emanuel e Cury, que tem força. Eu nunca subestimei.

Você esperava tamanho desmonte de seu governo?

Não esperava não. Isso eu não esperava. Algumas coisas é natural que se mude em uma nova visão de mundo, uma nova visão de cidadão. Mas, por exemplo, o programa Escola Interativa não tem nada de ofensivo ideologicamente aos tucanos. A necessidade de formar bem as crianças para o mundo da tecnologia não tem ideologia. A Coréia investe pesado na Educação e Cuba investe pesado na Educação.

Você mexeu no programa Decolar, considerado uma das vitrines do governo Eduardo Cury na área da Educação. Não é a mesma coisa?

Não dá para comparar. O conceito do Decolar, que era para um grupo de alunos, nos trabalhamos o Escola Interativa para toda a rede. Há uma diferença de conceito muito relevante. E, veja, quando se fala do Escola Interativa, eu orientava nosso pessoal de Comunicação, não se pode focar no equipamento, no hardware, no tablet. É o conceito.

Você sabe o que a gente estava fazendo no Escola Interativa? Estava fazendo oficinas de programação de computação. Estávamos pegando crianças de 10, 12, 14 anos, junto com o pessoal do Renato Archer, de Campinas, e dando as primeiras noções de programação para estas crianças. Imersão, realidade virtual, junto com o Parque Tecnológico, as universidade. A infra-estrutura estava dentro de uma nova dinâmica dentro da escola. Se você conversar com professores e diretores, você vai encontrar uma critica pontual sobre um aspecto ou outro, mas, no conjunto, a gente teve vários depoimentos de que mudou a dinâmica da escola.

E os tablets quebrados? O programa teve falhas em sua formatação?

O programa foi formatado, com pesquisas, estudos. E o programa foi adaptado, criamos o LEDI, esse cérebro dentro das escolas, com uma assistência help-desk, até uma formulação, reflexão. E até o uso do tablet, que, inicialmente, trabalhamos com a ideia de que cada criança deveria ter um tablet, levar para casa etc. Na prática, a experiência demonstrou que muitas crianças não levavam o tablet depois para a escola. O professor queria fazer atividades com o tablet e não conseguia. Nós alteramos isso ao longo do programa. Ao final, a gente passou a não mais distribuir o tablet por criança, mas sim ter o tablet na escola, como equipamento pedagógico.

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Você foi candidato a vereador pela primeira vez em 1988, assumiu como suplente em 89 e, desde então, sempre ocupou cargos eletivos. Foi deputado estadual, presidiu a Assembléia Legislativa do Estado, foi deputado federal. Agora, 27 anos depois, você está fora do guarda-chuva de um cargo público. Como é isso para você?

Para mim, pessoalmente, é muito tranqüilo. Embora eu tenha uma carreira política, nunca desenvolvi uma mentalidade carreirista a ponto de pensar que isso nunca poderia mudar. Muitas vezes as pessoas me falavam: você mantém esse vínculo com a Caixa Econômica Federal, mas nunca vai sair da política. Mas não, eu dizia que você, exercendo um cargo eletivo, está cumprindo um mandato e um mandato sempre é temporário. Por mais que você tenha uma base política, você tenha um apoio, e esse mandato possa a ser renovado, como no meu caso foi renovado por vários anos, o princípio do mandato é o princípio temporário e é o princípio da representação. Não acho que político deva ser uma profissão. A pessoa pode ter uma carreira, mas de política, de trabalho social.

E eu tenho uma visão de que você tem círculos. Um maior, que é uma visão humanista. Dentro desse círculo, um menor, englobado nessa visão humanista, que é a visão social. Dentro, menor ainda, uma visão política. E, dentro dela, uma visão menor ainda, uma visão partidária. O que me levou para a partidária foi uma visão de mundo, que eu chamaria de humanista. Ela me levou ao movimento social nos anos 80, depois à política, à política partidária e aos mandatos. Eu acho que um dos problemas que nós vivemos hoje é que houve uma hipertrofia dessa dimensão da política partidária.

Por isso não senti nenhum tipo de vazio. Estou tranqüilo. E aproveitando esse momento para fazer uma reciclagem. No período de mandato, em que fiquei licenciado, o mundo mudou e os bancos mudaram. Então nós vivemos hoje uma realidade diferente, eu estou tendo que reaprender muita coisa. E isso é bom.

Carlinhos, afinal qual o tamanho do rombo que o seu governo deixou? O governo do PSDB fala em mais de R$ 300 milhões, um estudo do vereador Wagner Balieiro, do PT, reduz o valor a pouco mais de R$ 20 milhões. Para você, qual o tamanho do problema?

Eu deixei uma prefeitura equilibrada, tanto que conseguimos ir, até o fim, com todos os serviços fundamentais em dia. Mesmo com um clima que se fez de até mesmo instigar fornecedores. Terminamos o governo com a manutenção da cidade em ordem, com o Hospital Municipal funcionando, com os salários em dia. Agora, nós tivemos uma dificuldade financeira. E não foi só na Prefeitura de São José. A arrecadação da União, dos Estados, dos municípios caiu vertiginosamente e as pessoas, ao longo dos anos, tiveram um aumento de serviços. E nós tivemos, no final, a crise econômica, que aumenta a demanda dos serviços públicos.

Então, qual a opção tem o gestor neste momento?

Ele tem a opção de ser um gestor frio, economista, financista, que corta programas sociais para que ele tenha um azul no balanço final ou administrar os pagamentos de forma a que você possa dar continuidade a programas que são essenciais. Nós fomos até dezembro com as academias ao ar livre funcionando, com instrutores, nos parecia um programa importante. Na forma de dar lazer à população, seja na forma de manutenção de m certo nível de emprego, que também é o papel do poder público.

Uma vez, o ex-prefeito Emanuel Fernandes me disse que ser prefeito no Brasil é um risco. Mesmo sendo correto, ele disse, você está sob vigilância constante e sob risco de ser alvo de uma denúncia ou fiscalização. Você deixou a prefeitura com dois problemas nas contas: foi citado em uma das delações da operação Lava Jato e teve os direitos políticos suspensos pelo Tribunal de Justiça do Estado no final do ano passado, por abuso do poder econômico na eleição de 2012.  Vamos discutir caso a caso? E, afinal, vale a pena ser prefeito?

Olha, em primeiro lugar, vale a pena ser prefeito porque você pode realizar um programa de medidas, de iniciativas, que melhoram a vida das pessoas e, mais do que isso, mostram um rumo da cidade que você acredita. Eu fico feliz quando vou à região leste de São José e vejo as transformações que a gente realizou. Eu fico feliz em ver pessoas com documentos, com titulo nas mãos, de bairros que a gente regularizou, alguns deles com algum tipo de infra-estrutura que a gente conseguiu realizar. Fico feliz quando vejo a Escola Interativa.

Mas, a atividade política hoje está muito desgastada por erros do sistema político brasileiro, erros que vão levar a um aprimoramento do sistema político.

Agora, cada um de nós é passível de cometer erros. Eu disse no começo do meu mandato que eu era prefeito e não perfeito. Ninguém é. Você pode cometer erros, você pode ter falhas. Mas o principal para mim nessas questões todas é que eu tenho a minha consciência tranqüila. Eu não mudei meu padrão de vida depois que eu sai da prefeitura. Eu vivo da mesma forma, eu vivo do meu salário, que, hoje, é menor do que o salário que eu tinha (quando prefeito). Para isso, eu e minha família fizemos toda uma remodelação da nossa vida. Isso para mim é o mais importante. E as pessoas percebem isso.

Eu sei que hoje ser prefeito é carregar pela vida uma série de processo. É assim como (Eduardo Cury), o Emanuel foi condenado. Existem uma judicialização da política absolutamente exagerada, na minha opinião. Agora, o mais importante é que eu tenho a consciência tranqüila e o mesmo padrão de vida que eu tinha antes. Eu não enriqueci na prefeitura, eu não adquiri patrimônio no período em que estive como prefeito.

Vamos pontuar as questões, que tanto causam dor de cabeça para você. No caso do kit escolar, em que você foi tornado réu pela Justiça, o que você faria diferente?

Não vou falar o que eu mudaria, vou falar o que nós mudamos. Fizemos o programa no primeiro ano, tivemos problemas e apuramos. Punimos a empresa. E tenho convicção que, ao longo desse processo, vamos conseguir demonstrar que não houve nenhum ato meu que desrespeitasse a lei ou a ética. O que aconteceu é que, num processo que você faz pela primeira vez e naquele voluma, 70 mil crianças, pode haver falhas. E digo mais: você pode e deve, na sequência, aprimorar o projeto. Nós fizemos, no primeiro ano, um (xx) muito amplo. Percebemos, ao longo do processo, que alguns itens não eram necessários. Vou dar um exemplo. Em algumas cidades fornecer mochila faz muita diferença, mas, em São José, nossa experiência mostrou que mochila não era um item fundamental. Muitas crianças preferiam ter a sua mochila, que o pai comprava, com a sua caracterização. Então, no segundo ano, não teve mochila.

Fomos aperfeiçoando o processo ao longo da gestão. Acho que é assim que tem que ser ...

Mas o kit escolar virou uma espécie de símbolo de desperdício de dinheiro público. No governo atual, uma das primeiras ações foi paralisar a licitação da compra de material escolar para reavaliação. E o governo comemorou ter reduzido o preço.

Tiraram itens, reduziu o preço. Mas o importante é que ele (o kit escolar) é fundamental para as crianças e nós conseguimos consolidar, ao longo da nossa gestão, consolidar isso, o que foi uma conquista para a Educação. O material não é apenas um consolo financeiro para as famílias, a importância deles está em garantir, para todas as crianças, um item que é importante, independente de situação social, independente de renda. E esse programa está consolidado, tanto que a atual administração, que nunca fez e no passado se dizia contrária a fornecer material, manteve.

Voltando ao caso da Odebrehct Defesa e da Lava Jato, um processo que virou, no Brasil, sinônimo de falcatrua, desvio, corrupção. Você se sente incomodado por ter sido citado nas delações da Lava Jato?

Não me sinto incomodado, você pode ouvir o vídeo (da delação) e está lá a maior prova de que eu não cometi nenhuma irregularidade, nenhum crime. Mas eu quero repetir a você, o que me deixa mais tranqüilo e menos incomodado é que eu sei que eu passei pela prefeitura e não tirei nenhum proveito pessoal ilícito do cargo. Eu mantenho hoje o mesmo padrão de vida que eu mantinha antes. Eu vim trabalhar hoje no mesmo lugar que eu trabalhava antes de eu ser deputado, prefeito.

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Como é a rotina do Carlinhos bancário?

Eu saio de casa, venho para a Caixa, cumpro minha jornada de bancário, direto, jornada de bancário é de seis horas, sem aquela hora de almoço. E aí aproveito o período da tarde para ler, estudar, resolver problemas do dia a dia e plantar, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer.

O que você está plantando? E o que você está estudando?

Eu tenho lido, na verdade, livros didáticos, de História, e estou fazendo um curso de espanhol on-line. Então eu tenho lido textos em espanhol que eu pego na Internet. E o que eu gosto de plantar? Eu tenho muita coisa plantada no meu quintal: jiló, pepino, raiz forte, limão, chicória, couve, alecrim, manjericão. Eu mesmo fico impressionado com a variedade de espécies que eu consegui plantar. Esses dias eu estava medindo, acho que tenho 40 a 50 metros quadrados de terreno permeável, terra. É uma coisa que eu gosto.

Duas coisas surpreenderam as pessoas inicialmente. Primeiro, você ter voltado para a Caixa. Outra, essa barba...

Deu vontade, não tem relevância nenhuma...

Então vamos falar de caminhos. Você construiu uma carreira política, vereador, deputado, prefeito. E agora? Qual o futuro do político Carlinhos?

Eu estou cada vez mais próximo dessa faixa mais larga do círculo, cada vez menos estimulado a participar do núcleo deste círculo. Estou tirando um momento de reorganização da minha vida, de reflexão, sobre a minha trajetória, sobre o país, sobre a vida. Não tenho nenhum cronograma para concluir isso. Digo que hoje não sinto vontade nem disposição de disputar eleições. Minha disposição hoje é atuar muito mais em torno da defesa da cidadania.

Para onde isso leva?

Estou refletindo sobre tudo isso, mas o campo que me atrai hoje não é o campo da política partidária, eleitoral. O que me atrai hoje é o da visão mais ampla da política. Por exemplo, você tem hoje um acirramento de violências que já estavam superadas, como a questão do preconceito. Hoje você vê um certo reavivamento de forças de extrema direita. Esse debate precisa ser feito. Precisa ser feito, obviamente, pelos partidos políticos, que são importantes, pelos parlamentares, pelos mandatários do Executivo, mas tem que ser feito, principalmente, pela sociedade como um todo.

Você admite deixar o PT? Se você estivesse fora do PT em 2016, o resultado da eleição poderia ter sido menos duro?

Não sei, eu estou em um momento de reflexão e estou bastante aberto nessa reflexão. Não existe roteiro traçado, nem meta objetiva definida.

No calendário político, setembro é o prazo final para troca de legendas em vistas às eleições de 2018.

Minha prioridade hoje não é o calendário político.

Em 2016, houve um rumor sobre sua mudança do PT para o PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab. Se você estivesse em outro partido teria mais sorte na eleição?

Não sei, mas acho que não seria ético. Dentro da minha trajetória, por estar no cumprimento de um mandato, seria visto como uma manobra. Mas não resta dúvida, o PT foi o maior atingido por esta crise que a gente está vivendo.

Qual o caminho para encerrar essa crise geral que assola o país? Até onde vai esse impasse político?

Nós entramos em uma crise que tem alguns componentes. Um componente econômico que é inegável, com o país batendo 14 milhões de desempregados. Nada é pior do ponto de vista social que o desemprego. E o atual governo acho que erra ao priorizar reformas que diminuem as garantias dos trabalhadores. Sou da opinião de que é preciso fazer a reforma da Previdência, precisa modernizar a legislação trabalhista, mas primeiro isso tem que ser feito como um pacto social, que envolva empresários, trabalhadores e a sociedade. Está sendo feito de forma muito unilateral.

Essa situação de crise econômica se associa a uma crise de falta de legitimidade na política. A população vê com desconfiança, há uma certa impaciência, que é legítima. E, por outro lado, há uma enorme dificuldade de se criar consensos a nível nacional para o pais trilhar alguns caminhos. Por exemplo, é preciso haver uma reforma política? Sim, é necessário haver uma reforma política, como uma das formas de sair do lugar onde estamos. Mas você enxerga clima para isso hoje no país? Pelo contrario. Em todos os lugares se risca faca.

Até nos episódios do funeral da Dona Marisa, a imprensa noticiou uma conversa de Lula com Temer, me chama lá, vamos conversar. Era uma esperança, duas figuras importantes dialogando. Mas isso ocorreu?

Essas três coisas não de me deixam otimista. E é lógico que essa crise da economia tem esse componente social terrível, que é o desemprego. Mas a crise política, essa impossibilidade de criar caminhos, consensos, torna até mesmo uma solução para a crise econômica mais difícil.

A solução da crise passa pela eleição de 2018?

Sem dúvida nenhuma, uma solução ajuda a construir a legitimidade. Desde que o Brasil retorne a uma coisa que ele já teve, que era um pacto de respeito aos resultados eleitorais. O PSDB fez um movimento pós-reeleição da Dilma (Rousseff) de questionar a legitimidade do processo eleitoral. Esse é um elemento que acirrou essa crise política que nós estamos vivendo hoje.

Momentos de polarização podem gerar o surgimento de figuras alternativas na política. Algumas pesquisas apontam Jair Bolsonaro e João Doria na lista dos novos presidenciáveis. O que você acha do fenômeno Doria em São Paulo?

(Pausa) Olha, eu acho o seguinte: o importante neste momento é que haja regras claras e que as pessoas respeitem essas regras. Isso é que dá legitimidade à democracia.

Se a maioria da população de São José decidiu que o Felício é o prefeito e não eu, eu tenho que aceitar isso com naturalidade. Independente de quem seja o presidente do Brasil, eu vou ser sempre brasileiro e vou continuar torcendo para que o Brasil dê certo, que melhore.

Eu não torço pelo fiasco do Temer. Não tem adiantado muito a nossa torcida, mas eu não torço. Eu gostaria que ele tivesse conseguido fazer uma certa transição. Mas acho que tem um erro fundamental nisso aí, com o Brasil batendo recorde de desemprego e você vai discutir contrato temporário de trabalho de 9 meses. Em um momento de desemprego você faz uma Reforma da Previdência estabelecendo idade mínima e aumentando tempo de contribuição. Você tem categorias vulneráveis. Fico imaginando o pessoal da construção civil olhando essa combinação de reforma trabalhista e previdenciária.

Voltando ao Carlinhos que cuida da horta, o que você planta? Essa é uma atividade boa, eu tenho coisas plantadas em casa...

Você tem ora-pro-nóbis? Eu tenho, se você quiser eu te dou. Eu conheci lá em Diamantina, fui procurar para comprar e me falaram que não tem, cada um tem o seu em casa. Consegui uma muda com meu cunhado, plantei e fui estudar o ora-pro-nóbis. É altamente nutritivo, tem muita proteína, minerais e tem uma coisa ... Aquela baba dele é muito boa para intestino, como digestivo. Você só conhece ora-pro-nóbis com frango, né? (risos).

Que forma de atuação política você vislumbra hoje? Para onde o Norte está apontando, Carlinhos?

Estou neste período de descompressão política e o Norte está, neste momento, apontado para dentro. É um momento de reflexão, de reorganização. Porque a política partidária e eleitoral não é o principal objetivo da minha vida. O principal objetivo é construir a minha felicidade, mas viver em uma sociedade em que as pessoas sejam mais felizes. Uma sociedade mais justa, mais democrática, mais solidária.

Mas isso requer uma atuação política...

Há no mundo moderno uma infinidade de formas de atuação política. Você pega, por exemplo, o papa Francisco, é uma pessoa que, alem de ser um líder religioso, tem um papel social enorme nesse debate de valores, conceitos, gestos. Ele não é só um líder religioso, como Gandhi, por exemplo. Assim é a pessoa que participa de uma entidade, de um movimento social, que dá atenção aos outros. Como falei, não tenho objetivo traçado neste momento, muito menos caminho.

Está tocando a vida?

Nunca vou deixar de ser uma pessoa que tem uma visão sobre a sociedade e que quer dar a sua contribuição. Se eu tiver que me definir musicalmente, neste momento, eu usaria aquela música da Mercedes Sosa, “Solo pido a Dios”. Conhece? (Cantarola ...) "Solo le pido a Dios, que o injusto no me sea indiferente"... No Youtube tem uma versão em que ela canta com a Gal Costa, Chico Buarque, Caetano Veloso e Milton Nascimento. É um vídeo antigo, com ela no centro, com aquela aura, ao lado de um Chico novinho, Milton Nascimento magrinho...

Você foi candidato a vereador pela primeira vez em 1988, assumiu como suplente em 89 e, desde então, sempre ocupou cargos eletivos. Foi deputado estadual, presidiu a Assembléia Legislativa do Estado, foi deputado federal. Agora, 27 anos depois, você está fora do guarda-chuva de um cargo público. Como é isso para você?
 
Para mim, pessoalmente, é muito tranqüilo. Embora eu tenha uma carreira política, nunca desenvolvi uma mentalidade carreirista a ponto de pensar que isso nunca poderia mudar. Muitas vezes as pessoas me falavam: você mantém esse vínculo com a Caixa Econômica Federal, mas nunca vai sair da política. Mas não, eu dizia que você, exercendo um cargo eletivo, está cumprindo um mandato e um mandato sempre é temporário. Por mais que você tenha uma base política, você tenha um apoio, e esse mandato possa a ser renovado, como no meu caso foi renovado por vários anos, o princípio do mandato é o princípio temporário e é o princípio da representação. Não acho que político deva ser uma profissão. A pessoa pode ter uma carreira, mas de política, de trabalho social.
 
E eu tenho uma visão de que você tem círculos. Um maior, que é uma visão humanista. Dentro desse círculo, um menor, englobado nessa visão humanista, que é a visão social. Dentro, menor ainda, uma visão política. E, dentro dela, uma visão menor ainda, uma visão partidária. O que me levou para a partidária foi uma visão de mundo, que eu chamaria de humanista. Ela me levou ao movimento social nos anos 80, depois à política, à política partidária e aos mandatos. Eu acho que um dos problemas que nós vivemos hoje é que houve uma hipertrofia dessa dimensão da política partidária.
 
Por isso não senti nenhum tipo de vazio. Estou tranqüilo. E aproveitando esse momento para fazer uma reciclagem. No período de mandato, em que fiquei licenciado, o mundo mudou e os bancos mudaram. Então nós vivemos hoje uma realidade diferente, eu estou tendo que reaprender muita coisa. E isso é bom.
 
Carlinhos, afinal qual o tamanho do rombo que o seu governo deixou? O governo do PSDB fala em mais de R$ 300 milhões, um estudo do vereador Wagner Balieiro, do PT, reduz o valor a pouco mais de R$ 20 milhões. Para você, qual o tamanho do problema?
 
Eu deixei uma prefeitura equilibrada, tanto que conseguimos ir, até o fim, com todos os serviços fundamentais em dia. Mesmo com um clima que se fez de até mesmo instigar fornecedores. Terminamos o governo com a manutenção da cidade em ordem, com o Hospital Municipal funcionando, com os salários em dia. Agora, nós tivemos uma dificuldade financeira. E não foi só na Prefeitura de São José. A arrecadação da União, dos Estados, dos municípios caiu vertiginosamente e as pessoas, ao longo dos anos, tiveram um aumento de serviços. E nós tivemos, no final, a crise econômica, que aumenta a demanda dos serviços públicos.
 
Então, qual a opção tem o gestor neste momento? 
 
Ele tem a opção de ser um gestor frio, economista, financista, que corta programas sociais para que ele tenha um azul no balanço final ou administrar os pagamentos de forma a que você possa dar continuidade a programas que são essenciais. Nós fomos até dezembro com as academias ao ar livre funcionando, com instrutores, nos parecia um programa importante. Na forma de dar lazer à população, seja na forma de manutenção de m certo nível de emprego, que também é o papel do poder público.
 
Uma vez, o ex-prefeito Emanuel Fernandes me disse que ser prefeito no Brasil é um risco. Mesmo sendo correto, ele disse, você está sob vigilância constante e sob risco de ser alvo de uma denúncia ou fiscalização.
Você deixou a prefeitura com dois problemas nas contas: foi citado em uma das delações da operação Lava Jato e teve os direitos políticos suspensos pelo Tribunal de Justiça do Estado no final do ano passado,  por abuso do poder econômico na eleição de 2012. 
Vamos discutir caso a caso? E, afinal, vale a pena ser prefeito?
 
Olha, em primeiro lugar, vale a pena ser prefeito porque você pode realizar um programa de medidas, de iniciativas, que melhoram a vida das pessoas e, mais do que isso, mostram um rumo da cidade que você acredita. Eu fico feliz quando vou à região leste de São José e vejo as transformações que a gente realizou. Eu fico feliz em ver pessoas com documentos, com titulo nas mãos, de bairros que a gente regularizou, alguns deles com algum tipo de infra-estrutura que a gente conseguiu realizar. Fico feliz quando vejo a Escola Interativa.
 
Mas, a atividade política hoje está muito desgastada por erros do sistema político brasileiro, erros que vão levar a um aprimoramento do sistema político.
Agora, cada um de nós é passível de cometer erros. Eu disse no começo do meu mandato que eu era prefeito e não perfeito. Ninguém é. Você pode cometer erros, você pode ter falhas. Mas o principal para mim nessas questões todas é que eu tenho a minha consciência tranqüila. Eu não mudei meu padrão de vida depois que eu sai da prefeitura. Eu vivo da mesma forma, eu vivo do meu salário, que, hoje, é menor do que o salário que eu tinha (quando prefeito). Para isso, eu e minha família fizemos toda uma remodelação da nossa vida. Isso para mim é o mais importante. E as pessoas percebem isso.
 
Eu sei que hoje ser prefeito é carregar pela vida uma série de processo. É assim como (Eduardo Cury), o Emanuel foi condenado. Existem uma judicialização da política absolutamente exagerada, na minha opinião. Agora, o mais importante é que eu tenho a consciência tranqüila e o mesmo padrão de vida que eu tinha antes. Eu não enriqueci na prefeitura, eu não adquiri patrimônio no período em que estive como prefeito.
 
Vamos pontuar as questões, que tanto causam dor de cabeça para você. No caso do kit escolar, em que você foi tornado réu pela Justiça, o que você faria diferente?
 
Não vou falar o que eu mudaria, vou falar o que nós mudamos. Fizemos o programa no primeiro ano, tivemos problemas e apuramos. Punimos a empresa. E tenho convicção que, ao longo desse processo, vamos conseguir demonstrar que não houve nenhum ato meu que desrespeitasse a lei ou a ética. O que aconteceu é que, num processo que você faz pela primeira vez e naquele voluma, 70 mil crianças, pode haver falhas. E digo mais: você pode e deve, na sequência, aprimorar o projeto.  Nós fizemos, no primeiro ano, um (xx) muito amplo. Percebemos, ao longo do processo, que alguns itens não eram necessários. Vou dar um exemplo. Em algumas cidades fornecer mochila faz muita diferença, mas, em São José, nossa experiência mostrou que mochila não era um item fundamental. Muitas crianças preferiam ter a sua mochila, que o pai comprava, com a sua caracterização. Então, no segundo ano, não teve mochila.
Fomos aperfeiçoando o processo ao longo da gestão. Acho que é assim que tem que ser ...
 
Mas o kit escolar virou uma espécie de símbolo de desperdício de dinheiro público. No governo atual, uma das primeiras ações foi paralisar a licitação da compra de material escolar para reavaliação. E o governo comemorou ter reduzido o preço.
 
Tiraram itens, reduziu o preço. Mas o importante é que ele (o kit escolar) é fundamental para as crianças e nós conseguimos consolidar, ao longo da nossa gestão, consolidar isso, o que foi uma conquista para a Educação.  O material não é apenas um consolo financeiro para as famílias, a importância deles está em garantir, para todas as crianças, um item que é importante, independente de situação social, independente de renda. E esse programa está consolidado, tanto que a atual administração, que nunca fez e no passado se dizia contrária a fornecer material, manteve.
 
Voltando ao caso da Odebrehct Defesa e da Lava Jato, um processo que virou, no Brasil, sinônimo de falcatrua, desvio, corrupção. Você se sente incomodado por ter sido citado nas delações da Lava Jato?
 
Não me sinto incomodado, você pode ouvir o vídeo (da delação) e está lá a maior prova de que eu não cometi nenhuma irregularidade, nenhum crime.
 
Mas eu quero repetir a você, o que me deixa mais tranqüilo e menos incomodado é que eu sei que eu passei pela prefeitura e não tirei nenhum proveito pessoal ilícito do cargo. Eu mantenho hoje o mesmo padrão de vida que eu mantinha antes. Eu vim trabalhar hoje no mesmo lugar que eu trabalhava antes de eu ser deputado, prefeito.

 

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